Resumo: Este artigo relata: A) a história da constituição do Bosque 1 e 2 da cidade de Maringá como "unidades" de conservação de plantas da região; b) a situação atual dessas duas pequenas reservas e c) a visão de seus usuários como crianças, adolescentes e adultos. Como resultados temos: os Bosques 1 e 2 estão muito depredados e não são reconhecidos como parte da história ambiental da cidade de Maringá. São tomados como áreas de lazer, "shopping-center" da natureza pela boa parte dos entrevistados.
Palavras-chave: história de ambientes, parques urbanos, percepção de ambiente natural
Abstract: This article tells: A) the history of the constitution of the Forest 1 and 2 of the city of Maringá as "units" of conservation of plants of the area; B) the current situation of those two small reservations and C) your users' vision as children, adolescents and adults. As results have: the Forests 1 and 2 are very depredated and they are not recognized as part of the environmental history of the city of Maringá. They are taken as leisure areas, "shopping-center" of the nature for the interviewees' good part.
Keywords: environments history, urban parks, perception of natural environment
1. Introdução
Ao mesmo tempo em que o processo de colonização da região norte do Paraná eliminou grande parte da cobertura vegetal, também criou "áreas" de conservação nas áreas que foram urbanizadas. Em Maringá, já na década de 40, no traçado urbano, dois "pulmões" ficaram no mapa da cidade: o Bosque 1, denominado posteriormente de Parque do Ingá e o Bosque 2 denominado Parque Florestal dos Pioneiros.
Essa áreas verdes no centro urbano de Maringá, pretendiam mostrar às gerações futuras os tipos de vegetação da região, além do desejo de que o espaço urbano não sofresse com problemas de poluição e erosão. Seriam esses bosques, então, patrimônios naturais e culturais que preservariam a memória de uma parte de nossa história ambiental (Projeto Memória de Maringá). Designados como Bosque 1 e Bosque 2, esses remanescentes, como dissemos, foram projetados em forma de pulmões, dispostos em torno do "coração" da cidade: o Paço Municipal, Poder Judiciário e a Catedral.
Alguns estudos foram realizados sobres os bosques na cidade de Maringá. Entre eles destacamos as pesquisas realizadas que formularam os Planos de Manejo para o Parque Florestal dos Pioneiros (de 1993) e para o Parque do Ingá (de 1994). Esses planos foram efetuados pelos seguintes órgãos Prefeitura Municipal de Maringá - Secretaria Municipal do Meio Ambiente/Secretaria de Planejamento, Universidade Estadual de Maringá - Departamento de Agronomia e Instituto Ambiental do Paraná - Núcleo Regional de Maringá, para o Bosque 1 e pela Prefeitura Municipal de Maringá e Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná, para o Bosque 2. Esses planos ainda vigoram em 1998, apesar de os bosques estarem sofrendo contínuas modificações devido às ações naturais e antrópicas. Todavia, o projeto inicial desses dois bosques não conseguiu ser implantado como patrimônio cultural da cidade. Os objetivos desse projeto que foram executados são aqueles que viram e vêem nos bosques apenas um local de lazer e recreação tal como um shopping center. Não é de se estranhar que no portal central do bosque 1 (P. do Ingá) dois animais de plástico foram fixados em forma de orelhão telefônico, enquanto no seu interior as árvores, o solo e os animais coabitam com a erosão, o lixo e o mau cheiro.
Nesse artigo apresentaremos uma discussão sobre essas áreas, chamadas de unidades de conservação permanentes que, hoje em 1998, apresentam alterações que comprometem essa rede de diverso elementos naturais. Esta é a nossa questão: são essas áreas da cidade de Maringá, unidades de conservação ou de depredação? Para discutí-la propomo-nos, então, a apresentar o histórico de suas constituições, as leis municipais de criação e as atuais condições dos bosques. Apresentaremos também, dados de nossas entrevistas com crianças, adolescentes e adultos da cidade, realizadas no Colégio Gastão Vidigal e Brasílio Itiberê e Universidade Estadual de Maringá, para discutir como estas vêem nossos patrimônios culturais, os bosques.
2. O histórico da constituição dos bosques em Maringá
No do planejamento de Maringá, feito pelo urbanista Jorge Macedo Vieira, um dos princípios norteadores de seu projeto foi a proteção de áreas verdes e da vegetação nativa. Dessa forma, foram deixadas duas reservas de vegetação nativa naturais no centro urbano da cidade, ao sul, denominadas inicialmente Bosque 1 e Bosque 2. A disposição dessas áreas assemelha-se a dois pulmões no centro urbano de Maringá (figura 01). Estes bosques representam alguns dos últimos remanescentes da vegetação típica da região, que de acordo com a classificação de Veloso & Goes-Filho (1982), enquadra-se como Floresta Estacional Semidecidual.
Bosque 1:
Esta reserva florestal foi mantida desde o traçado inicial da cidade. Em 1969, com a ocupação acelerada do solo urbano e a conseqüente demanda por áreas de lazer, entendeu-se que era o momento de incorporar a área do parque ao cotidiano da população, implementando a recreação e viabilizando a conservação da área. A partir dessa data o parque passou a ser urbanizado, sendo inaugurado e aberto à visitação pública em 10/10/71, dispondo, em seu interior, de trilhas para caminhadas, lago, um pequeno zoológico e outras infra-estruturas. Conhecido anteriormente como Bosque 1 foi, nessa ocasião, denominado Parque do Ingá, em função da abundância da planta do gênero Inga.
No início de sua formação o Bosque 1 sofreu inúmeros incêndios e na gestão do prefeito Luiz Moreira de Carvalho, o incêndio foi de tal proporção que devastou parte da vegetação autóctone que foi substituída por vegetação vinda de outras regiões do Brasil. Hoje o Parque do Ingá é considerado uma das mais importantes áreas recreativas da região noroeste do Estado do Paraná e parada obrigatória dos turistas que passam por Maringá. Esse parque situa-se no centro urbano da cidade, possuindo uma extensão de 47,3 ha.
Bosque 2:
O parque projetado em forma de pulmão, foi deixado por volta de 1943 pela Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, obedecendo a legislação de proteção de mananciais em vigor na época. Esta reserva nativa sofreu os primeiros desmatamentos em 1976, quando da construção, na ala norte, de uma pista de motocross e na ala sul, a abertura da via perimetral sul, com extensão de 8Km.
Em 1982 a área do bosque 2 foi declarada pela câmara municipal como Área de Preservação Permanente e, um ano depois, denominada de Parque Florestal dos Pioneiros. Entretanto, em 1984, a mesma câmara revogou a lei 1.556/82 e autorizou o poder Executivo Municipal a proceder a recuperação ambiental e urbanização, inclusive a construção de um complexo arquitetônico que previa museu, teatro, salão de convenções, biblioteca municipal e a concessão para a construção de um hotel cinco estrelas. Devido a inúmeras manifestações contrárias de segmentos da sociedade maringaense, esse projeto não foi concluído. Em 1990, com o estabelecimento da lei orgânica do município, o artigo 174 confirmou como área de proteção permanente.
Este bosque só foi aberto à visitação em dias de competição de motocross. Essa pista foi desativada rapidamente, em função da degradação que provocou no período e, hoje, 1998, a antiga pista se recupera gradativamente. Além dessa pista, durante alguns anos a prefeitura autorizou produtores a instalar, no interior do bosque, caixas de abelhas para produção de mel. Porém, em razão da imcompatibilidade de funções e intensa atuação da administradora dos bosques do município, as caixas foram retiradas.
A área configura-se como uma bacia de recepção das águas drenadas pelo córrego Cleópatra. O parque, embora já despojado de muitas espécies vegetais mais valiosas (como a peroba), apresenta ainda expressivos representantes da flora nativa que estão sendo prejudicados pelas erosões que assolam o parque. Este recebe, atualmente as galerias pluviais, da zona 4 e da parte mais elevada da bacia junto à Av. Nóbrega. Além disso, há algum tempo, o bosque encontra-se precariamente cercado, o que possibilitou o estabelecimento de vários pontos de entrada e, por conseqüência, o despejo de grande quantidade de lixo.
3. Atividades de preservação
3.1 Planos de Manejo
Parque do Ingá:
O elevado número de visitantes, a pressão exercida pelo aumento da população no meio urbano, o nível de degradação observados em alguns pontos no interior do parque, bem como a necessidade de investimentos para melhorias na área, levou a elaboração de um plano de manejo, que constituiria o documento para guiar a administração do parque.
Os principais objetivos do plano de manejo realizado em 1994 eram:
proteger e eliminar as causas de alteração dos ambientes naturais, bem como, recuperar as áreas alteradas;
proporcionar oportunidades para pesquisa científica, assim como, oportunidades para educação ambiental e recreação.
Para otimizar o cumprimento dos objetivos, o parque seria dividido em 5 zonas, segundo suas características físicas e naturais e o destino de uso.
1- Zona Privativa: compreende áreas naturais pouco alteradas, o qual teria como objetivo manter a evolução natural dos remanescentes e proporcionar facilidades para pesquisa científica.
2- Zona de Uso Extensivo: são áreas naturais alteradas que se caracterizam pela limitada circulação. De forma geral, tinham como objetivo manter o ambiente natural, oferecendo facilidades para educação e recreação.
3- Zona de Uso Intensivo: constituída por áreas alteradas, onde se concentram grande parte das atividades e dos serviços. Previam a recreação e educação ao ar livre de modo harmônico com o meio. Compreende as áreas onde se localizam o portal de entrada, o centro de educação ambiental, o zoológico, o playground, o mirante, a lanchonete, o jardim japonês, a gruta Nossa Senhora Aparecida e toda a pista ao redor do lago. Cabe salientar que o centro de educação ambiental não foi construído. Por educação ambiental tem se entendido visitas de crianças e jovens ao Parque sem significar, no entanto, uma reflexão sobre esse patrimônio natural e cultural.
4- Zona de Uso Especial: trata-se das áreas onde localizam a ADEAM (Associação de Defesa e Educação Ambiental de Maringá), o posto da polícia Florestal, a administração central do parque, o abrigo dos funcionários e o galpão de manutenção. Seu principal objetivo seria concentrar as atividades básicas que garantem o funcionamento adequado do parque ou cooperam para tal.
5- Zona de Recuperação: de caráter temporário, compreende as áreas ao longo das erosões, bem como as invadidas por taquaras e lianas. Teria como objetivo geral deter a degradação dos recursos naturais e promover a recuperação do ambiente local.
Com a finalidade de atingir os objetivos e facilitar seus controles, foram estabelecidos três programas de manejo específicos: Programa de Uso Público (recreação; educação e interpretação); Programa de Manejo dos Recursos (investigação e monitoramento; manejo e recuperação) e Programas de Operação (proteção; divulgação e relações públicas; manutenção e administração)
O Parque Florestal dos Pioneiros:
O Bosque II embora fechado ao público, atrai muitas pessoas para seu entorno pela presença dos animais (macacos-prego) e pela exuberância da vegetação.
Diante dos problemas enfrentados por esse parque (erosões, lixo e abandono de seu projeto), em 1993, foi elaborado um plano de manejo para o Bosque II que previa, dentro das condicionantes básicas, ser imprescindível a construção do desvio das galerias de águas pluviais que eram despejadas diretamente no bosque, bem como a retirada da residência do vigia do interior do parque.
Para adequado uso do parque, o plano de manejo previa a sua divisão em 4 zonas:
1- Zona Privativa: compreende áreas naturais com elevado valor científico, onde a alteração tenha sido pequena (floresta primária alterada). Representa 2,17% da área do parque e teria como objetivo principal atividades de pesquisa científica, educação ambiental e formas primitivas de recreação.
2- Zona de Uso Extensivo: constituída por áreas naturais que sofreram algumas alterações e, caracteriza-se pelo uso limitado. Compreende 1,84% da área, representada pela faixa ao longo das trilhas de interpretação. Seu objetivo era manter a qualidade natural do ambiente permitindo o acesso aos visitantes, para fins educativos e recreativos.
3- Zona de Uso Intensivo: composta por áreas naturais ou alteradas pelo homem. Compreende a área próxima à entrada do bosque e a antiga estrada de acesso à ponte, além da pista para caminhadas, totalizando 1,54% da área. Essa zona seria destinada ao uso público mais intenso.
4- Zona de Recuperação: caracteriza por apresentar degradações resultantes da interferência antrópica combinado aos processos naturais. Esta teria caráter provisório e, uma vez recuperada, seria incorporada as outras áreas. Compreende cerca de 94,5% da área total, sendo representada por áreas de mata alterada, área de solo erodido e de nascentes e margens do córrego Cleópatra.
Com a finalidade de proporcionar o adequado desenvolvimento das atividades de manejo e garantir a efetivação do plano, as ações foram direcionadas em 3 programas, incluindo o Programa de Uso Público (recreação; educação e interpretação; extensão e relações públicas); o Programa de Operação (proteção e administração) e o Programa de Manejo (manejo de recursos e recuperação; pesquisa e monitoramento). O plano de manejo também previa a construção de um centro de visitação/mirante, trilha de interpretação, construção de painéis, mirante da voçoroca, ponte pensil, praça/quiosques, passarela/deck e pista para caminhadas.
3.2 Situação atual dos Bosques
Apesar das recomendações previstas nos planos de manejo para a conservação e manutenção essas duas unidades, essas áreas continuam sendo focos de destruição da fauna, flora, solo e água.
O Parque do Ingá, cartão postal da cidade apresenta hoje, locais onde se verificam voçorocas (aproximadamente 7m de profundidade) causada pelas águas provenientes do centro da cidade que continua sendo drenada para o interior do parque. Cerca de 50m a partir da margem onde essas galerias são liberadas dentro do parque possui uma "vala" cimentada e dissipadores de energia que diminuem a força da água, estratégias que foram adotadas para diminuir as erosões (figura 02). No entanto, todas as contribuições dessas galerias são despejadas diretamente no córrego Moscados, logo abaixo do seu barramento.

Figura 02: Canalização das galerias pluviais e sistema dissipador de energia construído no Parque do Ingá
Além do problema do grande volume de água que é lançado neste rio advindo das precipitações no centro urbano, temos ainda grandes quantidades de lixo que é carreado juntamente com a água e despejos (figura 03). Dessa forma o problema parece ter sido afastado dos locais visíveis ao público e transposto para o interior do bosque, onde não é notado por quem usa o parque.

Figura 03: Lixo acumulado na desembocadura da canalização junto ao rio Cleópatra, no interior do Parque do Ingá
Um outro problema apontado no plano de manejo foi as condições precárias das instalações dos animais. Em 1998, construiu-se mais 10 abrigos para os animais, mas continua a nossa questão: o tamanho da área comporta a presença desses animais? Eles continuam fora dos padrões exigidos pelo IBAMA. E o mau cheiro?
A falta de critérios e conscientização vai além da responsabilidade do poder público, sendo a população visitante grande contribuinte da depredação. Como podemos verificar, apesar do grande número de lixeiras instaladas no interior do parque, é comum a presença de garrafas, copos e embalagem plásticos dentro do lago, ao lado das trilhas por onde circulam os visitantes e mesmo junto a vegetação. Na figura 04 constata-se o grande narcisismo dos visitantes deixando estampados nos troncos dos "bambús" seus nomes e dizeres. Não adianta construir ilhas de conservação enquanto fora delas e mesmo dentro se destrói tudo. Como disse Diegues (1994), é preciso maior interpretação entre ser humano e natureza

Figura 04: Bambús depredados no interior do Parque do Ingá, próximo ao lago japonês
No Parque Florestal dos Pioneiros não foram executadas as ações previstas no plano de manejo. Em 1998 foi construída uma usina do conhecimento que está instalado no antigo acesso principal desse bosque. No entanto, os problemas levantados por ocasião do plano com relação as erosões continuam os mesmos ou até em maiores proporções (voçorocas de até 18m de profundidade). Associado ao problema da erosão a água das galerias formam extensas "marmitas" com água parada que favorece a proliferação de mosquitos (figura 05).
A prefeitura está construindo um anel que desviará toda a água das galerias pluviais que atualmente é despejada nos entornos do bosque, dirigindo-se para o córrego Cleópatra. Essa rede de galerias será canalizada no mesmo córrego no seu trecho à jusante do bosque. As questões aqui colocadas assemelham-se aos mesmos problemas verificados no Parque do Ingá, tanto em relação aos despejos em outro segmento do rio, como ao lixo transportado.
Nas margens do bosque ainda se pode verificar a alta incidência de entulhos e lixo de toda natureza jogados fora e dentro dos seus entornos (figura 06). Além desses processos depredativos, o tratamento dos macacos que sobrevivem no bosque por parte da população, constitui-se em um fator de preocupação. De acordo com Diegues (1994) um plano de manejo só pode ser eficaz com a participação real da população, porque vai definir o que deve ser preservado integralmente e o que pode ser usado mais ostensivamente. Como veremos posteriormente a maioria dos entrevistados desconhece a existência dos planos de manejo, mostrando despreocupação de segmentos da população e mesmo dos órgãos públicos competentes, com a manutenção das chamadas áreas de preservação maringaense. Uma realidade são os cartões postais da cidade, outra são as situações naturais e físicas desses patrimônios. Grün apontou em Ética e Educação Ambiental (1996) esse nosso comportamento antropocêntrico. Ou em outras palavras, os parques não passam de áreas para uso e não para manutenção e memória de patrimônios naturais/culturais.

Figura 06: Lixo acumulado na desembocadura da canalização no interior do Bosque 2.
4. A visão dos bosques das crianças, adolescentes e adultos
Realizamos as entrevistas com crianças, jovens e adultos, para compreender qual a percepção desses diferentes grupos de moradores da cidade. Foram entrevistadas 12 crianças na faixa etária de 8 a 11 anos e 11 adolescentes (12-18 anos), todos estudantes do Colégio Gastão Vidigal. Entre os adultos entrevistamos 10 alunos do supletivo (Colégio Brasílio Itiberê) e 06 professores da Universidade Estadual de Maringá (4 do curso de Ciências Biológicas e 2 da Geografia), todas essas instituições são de ensino público na cidade.
Nosso roteiro de questões levantava as seguintes perguntas: 1) Você conhece o Bosque 1 (Parque do Ingá) e o Bosque 2 (P.Florestal dos Pioneiros)?; 2) Como você vê essas áreas em Maringá? Bosque 1 e Bosque 2; 3) Você sabe que existe um plano de manejo dessas áreas?; 4) O que você mudaria nesses parques?
A destruição do patrimônio cultural e natural de Maringá é apontada em nossas entrevistas com crianças, adolescentes e adultos:
As crianças:
Todas as crianças entrevistadas conhecem o P.do Ingá, no entanto, a maioria desconhece o bosque 2 e confundem-no com o primeiro bosque. Com relação à significância dessas áreas, essas crianças consideram que o P.do Ingá "é um local bonito, que representa o meio ambiente, que tem muitas árvores, animais, sendo gostoso para andar e brincar (S. A J. M., 8 anos). No discurso desse grupo, embora alguns contemplem uma visão utilitarista da natureza, como por ex. "servir de local para se divertir" (M. B. F., 8 anos), a maioria delas possui uma concepção voltada para o conservacionismo, onde esses bosques representariam parte da história da cidade quando dizem: "representa uma parte do meio ambiente" (H. R. T., 8 anos). Além disso, as crianças em suas palavras, apontam problemas relativos à ausência da execução do plano de manejo. Quando perguntamos o que elas mudariam nesses parques elas reponderam: " é preciso tirar o mau cheiro, lugar de lixo é no lixo, colocar mais plantas" (L. C. B., 8 anos).
Os adolescentes:
Dentre os adolescentes, todos conhecem o P.do Ingá, mas apenas um tem conhecimento do Bosque 2. Neste primeiro grupo de entrevistados essas áreas representam "locais de turismo e lazer (A L., 18 anos). Dentro de uma visão antropocêntrica da natureza, fica bem evidente a idéia utilitarista da natureza que esse grupo tem desses parques. De acordo com Grun (1994) essa percepção é congruente com uma sociedade que ainda não se despojou da concepção de Bacon, na qual a natureza para ser entendida, necessita ser dominada, retalhada e detalhada. Apenas um entrevistado respondeu: " mostra um pouco mais como era Maringá antes" (M. S. U., 13 anos).
Segundo o único entrevistado que, de fato, conheceu externamente o Bosque 2 é "uma área que não é tão conservada quanto o P.do Ingá, e aqueles macacos podem ser perigosos e também se escaparem (que é muito fácil) podem ser mortos nas ruas" (M. S. U., 13 anos). Nessa fala, podemos notar um pouco da visão de conservação que os adolescentes possuem. Para eles, como no Bosque 2 não existem passarelas e não é aberto à visitação, ele é menos conservado que o P.do Ingá, onde encontra-se jardins exóticos, trilhas impermeabilizadas, lagos artificiais, "casas" para os animais etc. Essa percepção parece bem comum dentro de uma visão antropocêntrica, de que os parques são "meras" vitrines onde o homem urbano vai conhecer uma natureza isolada dos homens (Diegues, 1994).
Os adultos (supletivo):
A maioria dos entrevistados conhece os dois bosques. Com relação ao P.do Ingá. todos reponderam que: " constitui-se uma área utilizada para o descanso, lazer e turismo". O Bosque 2 por outro lado, é visto como uma " reserva florestal que está localizada no centro de Maringá, sendo bom pois melhora a qualidade do ar, servindo como pulmão" (A R. S., 21 anos). O Bosque 2 também foi considerado pela maioria como "uma área descuidada, que deveria ser limpa e construído calçamento para caminhadas". Um entrevistado respondeu que "deveria ser mantida como área preservada para gerações futuras" (C. S. F., 46 anos).
Quanto às melhorias a serem realizadas no P.do Ingá, obtivemos duas respostas: 1) não mudaria nada, 2) aumentar a infra-estrutura do zoológico. Preservado para esse grupo é tudo aquilo que está cercado, calçado...
Os adultos (professores universitários):
O nível de informação com relação ao estado atual dessas áreas, nesse grupo foi bem maior, sendo visto como "áreas bastante degradadas e mau cuidadas (J. L. 30 anos). Todos são conscientes da importância dessas áreas como forma de preservação de remanescentes da vegetação regional, mas que encontram-se bastante alteradas. " No P.do Ingá, é notável a presença de uma paisagem quase reproduzida (barragem, trilhas, plantas exóticas) e, no entanto, é visto como cartão postal da cidade (M. P.F., 48 anos). A maior preocupação direciona-se para o problema das galerias pluviais que são despejadas dentro dessas áreas. Foram levantados ainda o problema do manejo inadequado dos animais no zoológico (P.do Ingá) e alimentação dos macacos-prego pela população dos entornos do Bosque 2.
5. Algumas considerações
Nessa falas, notamos diferentes percepções com relação as áreas verdes dessa cidade. Parte dessas diferenças referem-se ao nível de instrução e faixa etária. No entanto, na maior parte dos entrevistados aparece a consciência de que essas áreas não são parte da história ambiental da cidade. Todos os problemas que hoje as afetam estão ligados ao fato de que não as sentimos como parte dessa história. Apenas as olhamos de longe, não nos sentimos responsáveis, nem co-autores dessa depredação ambiental que está ocorrendo nas "ilhas de preservação" da cidade.
Essa áreas são percebidas desvinculadas do espaço urbano; embora sejam parte do patrimônio cultural da cidade elas são ignoradas como tal, tanto pelo poder público quanto pela população.
Grün (1996), Diegues (1994), Hans George-Flinkinjer (1994) apontaram em seus estudos essa lacuna homem-natureza, que é enfatizada pelo homem utilitarista e natureza para ser usada. A educação ambiental tem discutido essa relação, no entanto, ela própria padece desse problema utilitarista e antropocêntrico, ou seja, ainda os parques são espaço para ir, ver e divertir. Não são espaços para reflexão sobre a natureza, nem para educação científica e, sobretudo, não são espaços, ainda, para a memória histórica das cidades e do país. São, infelizmente, vistas como apenas áreas de lazer, shopping-center da natureza.
6. Referências Bibliográficas
FLICKINGER, H. G. O ambiente epistemológico da educação ambiental. Educação e Realidade, v.19, n.2, p.1970-207, 1940.
GRÜN, M. Ética e educação ambiental. São Paulo: Papirus, 1996.
PREFEITURA MUNICIPAL DE MARINGÁ. Parque Florestal dos Pioneiros (Bosque II) - Plano de Manejo. Maringá: Prefeitura Municipal de Maringá, 1993. 42p.
PREFEITURA MUNICIPAL DE MARINGÁ. Plano de Manejo: Parque do Ingá. Maringá: Prefeitura Municipal de Maringá, 1994. 74p.
PROJETO MEMÓRIA. Maringá: Prefeitura Municipal de Maringá. (Gravações em fitas K-7), 1995.
VELOSO, H. P.& GÓES-FILHO, L. Fitogeografia brasileira - Classificação fisionônico-ecológica da vegetação neotropical. Salvador: IBGE, 1982. 85p.