O DESMATAMENTO NO NORTE DO PARANÁ: UM RECORTE COMPARATIVO AMBIENTAL

 

Maria Lúcia Bertachini Nosella*

José Carlos Alcântara**

 

 

Resumo: Este artigo apresenta um perfil da "marcha" do desmatamento do norte do Paraná desde sua colonização nas décadas de 30, 40 e 50. Apresenta dados sobre matas e florestas transformadas em terras de agricultura, mostrando uma história de devastação ambiental na região.

Palavras-chave: desmatamento, história ambiental, colonização e meio ambiente

 

Abstract: This article presents a profile of the " march " of the deforestation of the north of the Paraná since its colonization in the decades of 30, 40 and 50. It presents data on forests and forests transformed into lands of agriculture, showing a history of environmental devastation in the region.

Keywords: Deforestation, environmental history, colonization and environment

 

 

1. Introdução

Historiadores um tanto desconfiados perante uma área nova, eis como se nos afigurou, de início, pesquisar em termos de Educação Ambiental. Porém, logo, a soma de pequenas descobertas fornecidas pela leitura Grün (1996), Warren Dean (1996), nos fez compreender o quanto somos presa fácil da visão antropocêntrica muito arraigada em nossa cultura.

Do vapor à desintegração do átomo, entre os séculos XVIII e XX, as Revoluções Industriais detonaram uma relação em cadeia que modificou as relações dos homens entre si e entre eles e o meio ambiente. O grande intuito desse capitalismo "pleno" sempre foi a exploração máxima dos recursos naturais para se chegar a lucros cada vez mais elevados.

Institutos de Pesquisa nos revelam que quase a metade das florestas mundiais foi derrubada ou queimada até agora, disso resultando uma redução de quase 3 bilhões de hectares ou 30 milhões de km2. A um compasso alarmante de 16 bilhões de hectares por ano, 76 países já perderam totalmente sua área florestal original e em outros 28 restam apenas fragmentos empobrecidos de fauna e flora crescentemente ameaçadas(1).

Toda vez que vem à baila o tema sobre a devastação das florestas tropicais, um especialíssimo relevo e destinado à Amazônia brasileira. A insistência é tanta que torna necessário estabelecer "a priori", que embora não sejamos, como os mais desenvolvidos, os grandes responsáveis pela degradação ambiental, emprestamos nossa colaboração ao processo. E, como prevalece a lei do mais forte, os mesmos "lobbies" que minimizam o desastre de um Exxon Valdez em 1988, jogam sobre nós a responsabilidade de catástrofes possíveis como o derretimento da calota polar do norte.

Vítimas tradicionais de colonialismos, antigos ou novos, economias similares à brasileira baseiam-se em doses apreciáveis nos seus recursos naturais, as maiores expectativas se centralizam no setor primário. A "camisa-de-força" no dizer de muitos, torna a importação de tecnologias de reconstrução do meio ambiente muito dispendiosa, exige para ser removida um suporte educacional que tais países não possuem.

Assim, pesquisas envolvendo seleção de áreas para preservar no planeta, envolvem paradoxos como os que revestem o caso brasileiro: de um lado criam-se reservas, de outro se avança maciçamente sobre florestas primárias remanescentes. A um tal sistema seria totalmente estranho um despojado zelo pela natureza, traduzido em autêntica preocupação com a pujante floresta equatorial, a qual já se considerou um "Inferno Verde".

Edmundo Mercer, em artigo jornalístico de 1924 antecipou a expressão consagrada em livro do "brasilianista" Warren Dean: o desmatamento entre nós, representou um episódio capitalista executado "a ferro e fogo"(2).

Se o machado e a queimada simbolizam à maravilha o cenário que só no "ciclo do pau-brasil" como querem alguns, levou 6 mil km2 de Mata Atlântica no primeiro século de nossa colonização, tal figura continua servindo para a devastação das Araucárias do Paraná, na primeira década do século XX.

Quando se trata da Amazônia, hoje, uma tal mentalidade se faz instrumentalizar pela motosserra. Cinco séculos de vigência comprovam que o ponto de partida não deva ser buscado apenas na chegada dos portugueses. Temos de ir rastreá-lo mais longe, numa visão pragmática de origem religiosa, que se caracteriza principalmente por ver no homem um ser superior, acima da natureza, da qual pode usar e abusar. Keith Thomas encontra no livro do Gênesis (I, 28) as raízes desse antropocentrismo bíblico, pelo qual, a tarefa do homem é "encher a terra e submetê-la"(3). Quaisquer justificativas são válidas na legitimação do desfrute. No caso dos animais abatidos, houve quem afirmou que eles foram poupados dos sofrimentos da velhice. Para a "mata virgem" se reserva um lugar de atraso e preguiça, desmatamento significando progresso, avanços. Nesse sentido, defender a permanência inalterada de todas as florestas primárias seria uma utopia, mas, a sistemática desvalorização da natureza obedece a alguns princípios que merecem elucidação.

Quando os jesuítas consideravam os papagaios como os "anjos caídos" de Lúcifer ou, bem modernamente, os espíritos da floresta foram apresentados como entidades malignas, encontramos implícita a enculturação ou o artifício de que é mais fácil conquistar aquilo que é aviltado. Uma empresa submetida aos objetivos mercantis e reforçada pela tropicalidade de nosso clima, a atitude da Coroa Portuguesa perante a terra brasileira sempre foi patrimonial e expropriadora(4). A mesma depreciação e temor dirigida às florestas atingiu ao indígena, cuja conquista foi facilitada pela catequese, ampliada pela ação das doenças importadas e completada pela destruição de seu modo de vida, corolário do total desrespeito à sua cultura.

O compasso da "espada, cruz e fome" como sintetizou Pablo Neruda, se fez acrescentar da utilidade do indígena como instrumento de trabalho, seguiu-se da expropriação das terras indígenas.

Atingidos pelas "mitas" e "yanáconas" na América Espanhola, pelas "guerras justas" entre nós, no século XVIII sendo-lhes concedida uma liberdade apenas nominal, é lícito concluir que, até hoje, a condição do índio é a de um cidadão menor, sem direitos plenos perante a Constituição.

E, é óbvio, são eles os grandes desalojados pelo desmatamento. No Paraná atual, por exemplo, sem recursos naturais, aculturados, vivem em precaríssimas condições. Ao déficit habitacional verificado em todas as reservas, soma-se a péssima condição sanitária. Entre eles a doença sempre foi vista como um desiquilíbrio devido à alimentação, emoção e hábitos de vida, uma desarmonia com o Cosmos. Perdido o local e o conhecimento da cura e sem acesso aos métodos dos "civilizados", vivem um impasse que a comunidade Avá-Guarani do Paraná sintetiza muito bem: "Nosso pensamento é voltar a viver de novo no mato, porque o mato dá saúde para criança e para o adulto também(5). O confronto entre a mentalidade capitalista e aquela própria da comunidade primitiva, inclui o tratamento que se dá à terra, ao tempo, ao trabalho.

Para o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, enquanto somos multiculturalistas, os indígenas são multinaturalistas. A noção de que animais e plantas são dotados de almas idênticas à humana, vem muito bem ilustrada na conhecida carta do Cacique Seatle, de 1855, onde se vê a terra apresentada como "mãe", os animais como irmãos, a natureza, enfim, não podendo ser encarada como objeto de compra e venda(6).

A par da profecia que o apetite do homem branco transformará a terra num deserto, está considerada a expansão contínua das fronteiras sobre as matas, vistas como hostís, inimigas, passíveis de conquista e abandono.

A catequese enculturadora, desconsiderando como trabalho a caça e a pesca, obrigava os homens a fazer o papel reservado às mulheres, como aconteceu no caso da agricultura. Além disso, trabalhar à ibérica, impossibilitava a manutenção do cotidiano e do uso do tempo conforme a cultura indígena. De um presente contínuo ao qual o passado retornava nos mitos, os índios foram forçados à preocupação com o futuro. Essa alteração é tanto mais radical quando consideramos que a maior poupança feita por esses povos dizia respeito ao aprovisionamento de farinhas de guerra(7).

O desapego aos bens materiais que, no dizer de Dean, ora enfurecia, ora divertia os portugueses, nunca foi por eles ou mesmo por nós, compreendido. Acusados sistematicamente de ócio e preguiça, de viverem "em vadiação" e "com repugnância a todo trabalho", como se lê em documentos do século XVIII(8) tais considerações ainda persistem nesse final de segundo milênio.

O "ouro-doce" definiu a cultura da cana-de-açúcar setecentista, o ouro propriamente dito dominou o século XVIII, o "ouro-verde" conduziu a derrubada das florestas do norte do Paraná, hoje, a soja é apresentada como "ouro em grãos". Essa visão capitalista e etnocêntrica se alinha ao lado de categorias como: descoberta, conquista, civilização, progresso...

O pajé Davi Kopenáwa Yanomâni atinge uma precisão diagnóstica quando afirma que a causa das epidemias que dizimam seu povo está contida na xawara, a fumaça mortal que emana do ouro, que os brancos mexem, como se fosse farinha(9).

O caso da Amazônia, hoje a nossa "última fronteira", é de grande impacto, dado o porte da maior floresta tropical do mundo, primeiro lugar planetário quanto à biodiversidade. Sua representatividade no que se refere a conflitos de terras ou à força histórica do capitalismo (um caso limite foi o de Chico Mendes), se enriquece de um valor didático de modelo, para os paranaense ficando a impressão marcante de um "deja vu", com perdão do galicismo. Esse "já visto" reforça a dicotomia citada, pois que a erradicação da mata virgem, entre nós, sempre se fez em nome do desenvolvimento e, até, da soberania nacional ameaçada. Este é um dado que complica muito, em seu bojo se ocultam os "lobbies" internacionais e, mesmo, nos permite encontrar "desculpas" no efeito dissimulador pretendido pela manipulação simbólica que a comunidade internacional faz do caso amazônico. Se aos desenvolvidos apraz apontar unanimemente nossa dissídia e vilania perante o meio ambiente, parece inegável que aquilo que mais os incomoda é o uso que fazemos de nossa parte majoritária da floresta amazônica.

Complexo monumental de florestas diferenciadas, nele vivem mais de 20 em cada 100 espécies de animais e plantas existentes no mundo. Enquanto em todo o hemisfério norte não encontramos mais de 200 espécies de peixe, nas águas de seus rios estão mais de 1.300 exemplares. Pelo menos 60% dos 5.800.000 km2 da região estão cobertas por essa formação única que constitui, conforme o padrão dos ecossistemas, a maior biomassa em todo o mundo.

O desmatamento já atingiu a Amazônica. No dia 19 de dezembro de 1998, interessante reportagem do "Planeta Terra" do Canal 10 mostrava que o processo alcançava uma área de 426 mil km2 (equivalente à área conjunta de São Paulo e Paraná) com um ritmo anual de cerca de 30 mil km2 (apenas a área da Inglaterra). A telinha ilustrou a exploração do mogno, cujo valor comercial é grande no mercado internacional. Particularmente impressionante foi a visão de 2 mil toras prontas para o embarque só nessa ocasião, em Itacoatiara. Sem mencionar os estragos adicionais (a derrubada de uma árvore pode arrastar outras 27 ou 30 em sua queda), a repetição do que ocorreu no Paraná, apenas com a mudança de alguns personagens, é inegável. Posseiros, grileiros, empreiteiros ou "gatos", índios, peões, garimpeiros, mineradores, madeireiros, contrabandistas, colonos, trabalhadores volantes (no Paraná são chamados de bóia-frias), misturam-se a empresários nacionais e estrangeiros num contingente heterogêneo, potencialmente conflitante. Movidos pela força de um sistema que só privilegia os lucros e as oportunidades, alimentando-se de novos ou velhos sonhos, os migrantes procuram "fincar pé" numa das várias atividades que se apresentam na região. São também a prova de que em plena Terceira Revolução Industrial existem homens que ainda vivem de uma floresta.

Ponto de equilíbrio desejável entre a atividade industrial e o equilíbrio ecológico, as reservas extrativistas de Chico Mendes já existiam há dois anos, mas sua morte, em 1988, por pistoleiros contratados pelos grandes fazendeiros, mostra de forma cruel quão arrasador é o sistema nesse ponto(10). Até 1970 a Amazônica brasileira era uma imensa região natural com baixíssimas densidades demográficas, conhecia pelo extrativismo vegetal tradicional, aquele da borracha, guaraná, castanha-do-pará e outras "drogas-do-sertão". A abertura de grandes estradas, o interesse em madeiras-de-lei, os projetos agro-pecuários e mineradores, as hidrelétricas construídas para atender usinas e núcleos-urbanos, modificaram completamente a paisagem da região. Embora a Transamazônica hoje se apresente como trilha descontínua de buracos, atoleiros e pontes prestes a cair, na década de 70 quando foi iniciada, motivou um grande processo migratório. Pelos anos 80 mais de 50 mil posseiros encontravam-se espalhados pelos 50 milhões de hectares entre o oeste do Maranhão, sul do Pará e Goiás e o Bico do Papagaio, no extremo-norte do Tocantins. Obra faraônica, ora atribuída ao delírio de um ditador megalômano, ora justificada por motivos de geopolítica, qual seja, defender a hegemonia brasileira sobre a região, essa primeira frente de povoamento e urbanização induzida pelo governo militar foi o início de uma fase.

A criação da Amazônia legal incluindo 57% do território nacional e perfazendo 11.248km de fronteiras internacionais foi definida pelos mesmos critérios geodésicos e políticos. Incentivos fiscais e toda uma situação favorável permitiu que em vários pontos da BR-230 e, depois, na década de 80, da Belém-Brasilía (BR-153), Cuiabá-Porto-Velho (BR-364) ou Cuiabá-Santarém (BR-163), fossem fixadas agrovilas de migrantes e o governo chegou a distribuir terras (até 100 ha) e empresas compraram extensas áreas para lotear e vender.

A redução das matas nativas do sul (as Araucárias, por exemplo) e os incentivos oferecidos pela SUDAM fizeram muito mais intensa a secular extração de madeiras. Se em 1976 extraiam-se dali 4,5 milhões de m3 (14% do todo o Brasil), em 1986 esse número já estava em 17,4 milhões de m3 (44% do total). Mencionaremos apenas de passagem mas, é preocupante, o interesse das empresas que produzem medicamentos e cosméticos por essências encontradas nessa floresta. A maioria delas sendo estrangeira, existe todo um movimento muitas vezes clandestino, mas tão eficaz quanto foi a procura pela rotenona do timbó nos idos de 60.

São, contudo, os projetos mineradores que mais atraem o "olho-gordo" dos poderosos. A maioria dos que se dirigem para a região para "bamburrar", ou seja, enriquecer de uma hora para outra, se destina a essa atividade.

Rondônia, a mesma que tem apresentado crescimento exponencial quanto a vários setores, como a produção de madeira serrada e laminada, ocupação agrícola ou garimpagem, se tornou o Estado com a mais alta densidade da Amazônia entre 1960 e 1980. Para esse número – quase 5 hab/km2 – contribuíram muitos paranaenses, repelidos do ex-sul "maravilha" na transição do café para o soja e sob o impacto da modernização conservadora pós-1970.

As grandes riquezas minerais são exploradas por grandes empresas nacionais e estrangeiras. De Carajás cerca de 30 milhões de toneladas anuais de ferro seguem para o Japão(11). Para fornecer energia mais barata a tais empresas, nessa região, onde se concentra 50% do potencial hidrelétrico brasileiro, constroem-se barragens e hidrelétricas. A Eletronorte tem um projeto chamado 2.010 que prevê a construção de mais 136 usinas até esse ano-título. Se construídas, elas irão inundar um estado de São Paulo inteiro: cerca de 250.000 km2. Tucuruí, no Tocantins, a leste do Pará, tem capacidade para 8 milhões de quilowatts e sua construção destinou-se especialmente à fabricação de alumínio para exportação.

No que se refere no tema de nosso trabalho, a eletrólise da bauxita provocou o desaparecimento de 6.500km2 de riquezas naturais, a perda de milhões de dólares em madeiras nobres. O lago inundou, é claro, terras indígenas. Apesar dos esforços da "Operação Curupira" apenas 283.000 animais foram salvos da grande inundação. Balbina, no rio Uatumã, construída para servir Manaus, não assinalou nem esse cuidado e centenas de milhares de animais se afogaram. Mas, tanto em Tucuruí como em Balbina, a natureza devolveu os malefícios a ela causadas. A decomposição de tantos vegetais submersos liberou gás metano e óxido de enxofre, além de tornar a água extremamente ácida. Complementado pela multiplicação das algas, tal processo passou a atacar as turbinas da usina, exigindo operações periódicas de manutenção e limpeza, em muitas ocasiões comprometendo a produção de energia.

Outras ocorrências, tais como pragas de insetos, podem ser conotadas a tais intervenções no meio natural(12). Se a Amazônia não é o "pulmão do mundo" como querem nos fazer crer, sendo quando muito responsável pelo próprio C02 que produz, onde se encontra a razão para tais "mitos" e a nossa pressa, precipitação mesmo, em implementar programas de ocupação?(13)

A seqüência de erros em Rondônia, só para exemplificar, é tão grande, que causa espanto. Lotes riscados sem levar em consideração as curvas dos rios de planície, a inexistência de estudos da qualidade do solo, tornaram tais empreendimentos vulneráveis às enchentes ou à laterização, provando a imprudência dos assentamentos. As rodovias construídas na selva não recebendo cuidados (dispendiosíssimos e constantes) foram retomadas pelo mato, impediram o escoamento da produção e favoreceram apenas aos intermediários, muitos deles os próprios caminhoneiros que danificavam a estrada transportando madeira.

Na Amazônia estão se repetindo, sem alterações, velhos vícios. Um deles é a velha concentração fundiária, que acompanha nosso país desde o tempo das sesmarias. Embora o latifúndio tenha perdido uma pequena batalha no Norte do Paraná, entre 1940 e 1970, após esses decênios, voltou com toda a força, embutido no pacote em que San Martin engloba a mecanização e os agrotóxicos.

Realmente, na substituição do café pelo soja, pequenos proprietários que se arruinaram e trabalhadores rurais desempregados engrossaram as fileiras dos que se dirigiam para o Norte, Rondônia, em especial. Lilia Wachowicz é conclusiva ao assinalar que, entre 1970 e 980, como fruto de um modelo econômico "perverso", 1 milhão e 300 mil pessoas deixaram o território paranaense por motivos econômicos(14). Além das áreas de cultivo agrícola, valendo ainda lembrar a zona bragantina (pimenta-do-reino, malva, cereais), outras em Rondônia, Tocantins, Acre, sul do Pará e Amazonas (milho, feijão, arroz, cacau), existem grandes espaços dedicados à pecuária em Marajó, Paragominas, no Pará, com seu gado bovino e pecuária de corte extensivo. Nessas áreas, em especial, têm ocorrido muitos conflitos e o motivo é sempre o mesmo, os personagens prejudicados também: as terras de índios e posseiros sendo levadas, pela força da intimidação dos jagunços, pela lábia dos "gatos", num cenário novo onde tudo de velho se repete(15).

O tradicional inimigo das maiorias sem terra se une à hegemonia externa no momento em que nosso país se tornou dependente de tecnologias e peritos estrangeiros, fertilizantes e pesticidas, uma "Revolução Verde" que operou a transferência de uma parcela do controle rural para as mãos do capital industrial e financeiro. Aliás, se os próprios nacionais do país que importa tais pacotes, não percebem que estão utilizando mais intensamente o fator capital – de que são carentes – e desdenhando o fator trabalho, tão abundante e barato, não seria o interessado nas vendas que iria alertar para isso. A bauxita encontrada em reservas imensas no Pará é explorada em benefício da Alcan (canadense) ou das Alcoa e Reinolds (norte-americanas) e a Eletronorte ainda oferece descontos quanto ao fornecimento de energia para tais empresas.

Na confluência de um projeto nacional de fazer coincidir fronteiras econômicas com limites políticos e da lógica do capital, que a tudo sobrepõe o anseio pelos ganhos crescentes, fica claro que é cada vez mais impossível escapar às armadilhas internas ou externas que se nos apresentam a cada passo.

Fazer-nos irresponsáveis aos olhos do mundo, incapazes de lidar com uma área tão valiosa que envolve tanto, inclusive sobrevivência, é uma tática para encobrir outros objetivos ou travestí-los de preocupação ecológica. O dilema entre ocupar ou deixar coberto de "mato virgem", expandir a onda povoadora e econômica ou deixar que outros o façam, não é novo, mas certamente tem sido resolvido consoante à lógica do capital. E, não é da essência do capitalismo deixar de visar o lucro sobre todas as coisas.

Eis, por que, ainda, nos perguntamos:

- Se a Amazônia pertencesse a qualquer um dos países mais desenvolvidos do planeta ela seria usada apenas como reserva da biosfera, respeitada como um santuário de vida? Pelo que fizeram em seus próprios países, por sua presença entre nós, damos como certo que o bem da humanidade seria substituído pela imperiosa necessidade do desenvolvimento. As industrias automobilísticas – isto para citar apenas uma modalidade – jamais resistiram à tentação de ter à sua disposição quase 3 milhões de Km2 de possíveis ocorrências petrolíferas do tipo Pensilvânia. As aerofotogrametrias estrangeiras, anteriores ao RADAM devem ter contribuído muito para que essa manipulação que ousamos confirmar, se iniciasse.

A ER – 2 da Airbone Science da NASA que a 22 de janeiro de 1999 iniciou uma missão em Rondônia tem uma finalidade declarada: entender como funciona o ecossistema amazônico (quanto a chuvas, em especial) para saber da influência do seu desmatamento sobre o clima do mundo. Mas, por que exatamente em Rondônia, o estado mais rico em reservas minerais da opulentíssima Amazônia, foi o escolhido para a amostragem? Sobretudo, por que alguns deputados federais querem suspender a missão, julgando-a incoveniente à soberania nacional, por se tratar de informações estratégicas?

2. O desmatamento do Paraná como "algo que não pode ser descrito"

Fizemos nossas as palavras do geógrafo e geólogo Reinhard Maack porque suas observações são definitivas. Segundo ele, em nenhum outro país do mundo, florestas foram tão absurdamente destruídas como aquelas que, em 1926, o impressionaram pela grandiosidade mas que, em 1930, já tinham se tornado capoeira.

Nota-se que a década de 30 assinalou o desflorestamento da região montanhosa do Açungui, a partir de 1935 a frente cafeeira se expandiu para o oeste do rio Tibagi. Em 1950 o mapa fitogeográfico de Mack, o primeiro publicado no país, assinalava o recuo das araucárias, mas o Terceiro Planalto ainda estava relativamente preservado em termos de cobertura florestal(16). O grande incêndio de 1963, consumido 964.000 hectares, prejudicou a coleta de dados, mas foi possível notar que somente nos anos 60 o Paraná perdeu 240.000 hectares/ano e o maior motivo para isto foi café, em sua expansão no sentido norte-oeste.

Por volta de 1975 a "onda verde" extinguiu-se por várias razões(17) mas da primitiva área de 167.824Km2 de floresta primária, tinham sido destruídos 119.688Km2, transformados em terras de cultura, ou, quando esgotados, em mata secundária. Mas, esgotada a potencialidade do café, a soja continuou o processo e, segundo estudos comparativos, dos 83,41% de vegetação primária que havia em 1900, no ano 2000 só restarão 2,50%(18).

A voracidade de fronteira agrícola e imprevisão não permitiu aos "pioneiros" avaliar que a grande fertilidade da terra roxa se fazia acompanhar de geadas que, "brancas" ou "negras", são sempre prejudiciais à cultura do café. Essa ocupação predatória tem relatórios minuciosos: a primeira cobertura vegetal do Paraná constava de 94.044Km2 de matas pluviais tropicais e subtropicais, 73.780Km2 de matas Araucárias, 30.532Km2 de campos limpos e cerrados, 1.761Km2 de várzeas e pântanos, 529Km2 de vegetação de praias e restingas, também regiões altas da serra e 557Km2 de baías com faixas de mangue. Foi essa vasta área de 201.203Km2 que a interferência humana transformou.

A Mata Atlântica que aparece na Serra do Mar e cercanias de Curitiba, não obstante ter sido muito atingida (dos 1,3 milhões de Km2 de área original apenas restam 117 milKm2 ou 9%) é, ainda, a mais significante porção de floresta primária em nosso estado. A Mata Atlântica paranaense, escapou ao ciclo do pau-brasil, porque a maior oferta dessa madeira ocorria entre o Rio Grande do Norte e Cabo Frio, mas não ao movimento humano atraído pelo ouro de aluvião. O fluxo de vicentinos de Iguape para a orla litorânea e a fundação de Paranaguá, no século XVII, determinaram a ocupação dessa formação florestal mais antiga do Brasil (por volta de 70.000.000 anos) desde 1991 protegida como Reserva da Biosfera. As agressões que sofreu, para a exploração de palmito, madeiras-de-lei, ou carvão vegetal se aliaram à expansão dos bananais e condenaram à extinção os animais de grande porte. A cobertura remanescente localiza-se principalmente nas partes mais elevadas da Serra do Mar, onde temos, bem cuidado, o Parque Estadual do Marumbi.

O caso da mata Atlântica, da qual em âmbito nacional resta apenas 1%, permite que se faça um alerta sobre a Amazônia. Parafraseando Warren Dean(19) sabemos que o último serviço que tal constatação pode prestar, "de modo trágico e desesperado", é demonstrar as terríveis conseqüências do desmatamento.

De dimensões igualmente preocupantes, o exemplo das Araucárias é impar, ainda que tenha ocorrido numa época em que a riqueza florestal não incluía o potencial atual, quanto à pesquisa biogenética e indústria farmacêutica. Segundo o inventário Pinheiro, do Sul do Brasil, em 1930 a área ocupada pela Araucária Angustifolia era de, aproximadamente, 14 milhões de hectares. Por volta de 1995 tais coníferas estavam reduzidas a 316 mil hectares (8% de sua cobertura original), dado impressionante se lembrarmos que os pinhais se estendiam do sul de Minas Gerais até Missiones, na Argentina, de modo especial no Paraná e Santa Catarina.

A silhueta inconfundível que, ao lado da gralha azul, semeadora de Pinheiros, simboliza o Paraná, dominava o 1º e 2º planaltos, aparecendo em nosso 3º planalto apenas em áreas acima de 500 metros de altitude ou acompanhando os canais de escoamento de ar frio, vales fluviais abaixo. Nesse último caso, aparecia sempre associada à arecastrum (côco eriopatha). Embora seus bosques, dada a situação climática, apresentem variedades e densidade menores do que as florestas tropicais, em contrapartida, quase todas as madeiras úteis são representadas junto ao pinho do Brasil, o que aumenta o valor econômico de seus imponentes cerrados.

Na localidade das serrarias de Eldorado onde houve a construção do Castelo Eldorado em Marilãndia do Sul, nas cercanias de Apucarana centralizou-se uma verdadeira cidade com cinema, restaurantes e até moeda própria (o boró). A família alemã dos Stalk fornecia caixas para as grandes indústrias de cerveja de nosso país, num apogeu que pode ser situado entre 1940 e 1965. O resultado, que hoje se faz visível nas ruínas cobertas de mato vistas na região, avulta num testemunho eloqüente e muito triste: as Araucárias de porte soberano se transformaram numa Serra de Pó-de-Serra, que ocupa 6Km de extensão e, que em alguns trechos, tem mais de 6 metros de altura.

 

Gubert Filho se refere aos últimos redutos de Araucárias no 3º Planalto: o pinhal de Giacomet-Marodin, entre Laranjeiras do Sul e Quedas do Iguaçu, que já foi considerado o maior pinhal do mundo. De maneira geral, já nos anos 80 eles não passavam de capões isolados ou matas secundárias. As minúsculas áreas de Araucárias dentro da mata secundária (comprovamos isso fotograficamente viajando 87Km de Sarandi até Marilândia do Sul) são como as pequenas ilhas de mata plúvio-tropical que resistiram dentro da zona cafeeira: minúsculas. Segundo Hertel, a formação das Araucárias apresenta um espectro biológico de 6,8% de árvores, 10,6% de epífitas, 31,8% de arbustos, 22,2% de ervas, 26,5% de gramínias e 2,1% de trepadeiras. A devastação que assinalamos levou, ainda, 5 andares de vegetação: as araucárias, seguidas logo abaixo pela imbuía e pelo cedro. Nessas "matas pretas" segundo o falar da região, ainda se encontravam 169 espécies, entre as quais a sálvia e o angico(20). O bioma das Araucárias atingia 400.000Km2 no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, mas a exploração intensiva da madeira e a ocupação humana reduziram-na a apenas 4,5Km2.

O pinheiro do Paraná e a imbuía sustentaram a indústria madeireira por 150 anos, mas por volta de 1960 se iniciou o declínio dessa matéria-prima da qual o mercado interno absorvia 70% e o restante se destinava à exportação. Desde 1918, Romário Martins chamava a atenção(21) para a necessidade de se preservar tais matas, por razões de ordem "científica, moral e estética".

Como o caso da Amazônia, para as Araucárias também tem ficado patente a impossibilidade de se restaurar o ecossistema afetado. Além de ser empreendido por planos de manejo que não obedecem a princípios técnicos e ecológicos, regidos apenas pela ganância e visando o lucro fácil(22) tal replantio é bastante problemático.

Ao que parece e, de maneira geral, a Araucária é uma espécie epibiótica que não se mostrou adequada ao reflorestamento comercial. Crescimento lento e ramificação baixa prejudicando os nós da madeira desestimularam tentativas como a que ocorreu por volta de 1951 em Laranjeiras do Sul onde se observou que Araucárias enormes, justamente na idade de seu melhor desenvolvimento (80, 100 anos) secavam sem causa aparente e, mais que isso, não produziam sementes. Outro problema é que, à semelhança do que ocorre nos zoológicos com animais em cativeiro, não se registrava o crescimento de pinheiros jovens.

Além das formações citadas o pinheiro brasileiro surgia ao longo dos rios sombreando as matas ciliares, principalmente nas escarpas e nos declives. Também essas ocorrências sofreram devastação. A esse respeito fizemos constar importante entrevista com a doutora Promotora de Marilândia do Sul, doutora Susana Broglia Feitosa de Lacerda. Em depoimento tomado por telefone fomos informados que o Ministério Público muito tem-se preocupado com a desobediência às leis que regulamentam a preservação ambiental do Município, notadamente quanto à sistemática destruição da também chamada mata galeria. Em consonância com a Constituição Federal (Capítulo VI – do Meio Ambiente) o Sistema Estadual de Reposição Florestal Obrigatória vem proposto no artigo 161, incisos I e II, no 207, parágrafo 1º, incisos II, XVII e XVIII da Constituição Estadual. Existem outras leis como a Lei Estadual n.10.155 de 1º de dezembro de 1992 e a Lei n.11.504 de 11 de janeiro de 1995. Esta última é explícita quanto à reposição florestal obrigatória. Além disso, leis especificas sobre a reposição da mata (Lei 4.771 de 1965 e Lei 8.171 de 1995) não têm sido obedecidas.

Quanto a isto repete-se o que muitos assinalam e há muito tempo: as letras da lei, as palavras escritas são belas e bem encaixadas em textos eloqüentes mas, como se diz, não passam de "letras mortas", sem equivalência prática.

O citado art. 225 da constituição Federal começa anunciando que "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-los para as presentes e futuras gerações".

No VII, § 3º se afirma, ainda, que as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. Mas, como no mesmo VII, o § 4º afirma que a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica, entre outras, são patrimônio nacional e sua utilização far-se-á na forma da lei ou no § 5º se afirma que terras devolutas são aquelas necessárias à proteção dos ecossistemas naturais, ficam postas em choque as disposições legais. Afinal, já se patenteou o quanto a Amazônia é protegida ou qual foi o destino das terras devolutas, cedidas às grandes Companhias, no Paraná.

Ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) vinculado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, cabe a condução de políticas de conservação e desenvolvimento florestal do estado.

Como a preservação das matas, que era do IBAMA, passou para a Promotoria Pública através da Defensoria do Meio Ambiente, o que se pretende em Marilândia do Sul é o cumprimento da lei que diz respeito à reposição de espécies com porcentagens anuais distribuídas em 30 anos. Para isso se organizam projetos comunitários, envolvendo a Prefeitura Municipal, a Promotoria e, é lógico, a comunidade, representada por Associações de Moradores, escolas, produtores, todos os que se interessarem. Existem duas iniciativas em andamento: reflorestar a entrada de Marilândia por pequenos trechos que cabem a grupos de alunos das escolas do Município e a conservação do Ribeirão principal que não é depósito de dejetos ou último destino dos agrotóxicos, mas sim um curso de água de responsabilidade comunitária.

Porém, o que torna essa porção do Norte do Paraná um caso "clássico" de desmatamento não é o caso das Araucárias, pois não é essa a vegetação dominante nesses limites do Trópico de Capricórnio nem a atividade madeireira o seu principal agente. Aquela que desmatou séculos em décadas foi a atividade cafeicultura e a floresta citada por Mack em suas desalentadas observações é a também exuberante floresta plúvio-tropical latifoliada.

Era essa formação que revestia grande parte dos planaltos entre os rios Itararé, Cinzas, Tibagi, Pirapó, inclusive o Vale do Ivaí. Floresta bastante úmida e quente, onde eventualmente ocorrem Araucárias, apresentava-se cerrada, riquíssima em epífitas, cedro rosa, canelas, embuia, perobas, pau d’alho, ainda hoje um indicador de terra boa.

Exemplar menos exuberante de floresta plúvio-tropical desenvolveu-se a Noroeste, abrangendo a região entre os rios Pirapó, baixo Ivai e foz do Piquiri. Essa menor pujança alia-se ao fato de ter-se formado sobre solo arenoso profundo – o arenito Caiuá, sujeito e voçorocas – e não sobre latossolos roxos.

Na região norte, inteira, o desmatamento que possibilitou a entrada mais fácil das frentes polares que destruíram milhares de cafeeiros, sempre se fez seguir de queimadas e não incluiu o aproveitamento das madeiras-de-lei próprias da floresta da região.

Essas madeiras espalhadas pela floresta primária latifoliada eram difíceis de transportar. Uma pequena parte teve uso local, principalmente para a construção das casas de madeira e galpões típicos dessa fase "pioneira" mas a maioria era queimada "in loco". A floresta se destinou a ser fertilizante em cinzas e nesse procedimento usual se esconde uma "bestialidade que dificilmente será ultrapassada" no dizer de Hertel.

Para plantar café era necessário "limpar" o terreno a um custo mínimo e a floresta era um estorvo de porte. Romeu Nosella Filho, advogado paulista que naquele tempo estava a serviço do empresário Antonio Ungaro em Assis Chateaubriand, se declara estarrecido com o que viu em 1975: centenas de milhares de imponentes toras de madeira dispostas em "leiras" para serem entregues ao fogo que "lavrava"... por dias e mesmo semanas. Toda a usura embutida na motivação transparece do lamento desse autor quando fala que canelas de primeira qualidade jaziam nos cafezais "qual cadáveres semiconsumidos"(23).

A devastação, porém, não atingirá só a paisagem: com o passar dos anos, o próprio solo vai respondendo mal ao regime de queimadas e trazendo à baila o terror dos agricultores: o fenômeno da terra cansada. Em 1970 nos Campos Gerais necessitava-se de 3 ou 4 alqueires para pasto quando em 1930 se obtinha o mesmo resultado anual em 1 ou 2 alqueires.

Mais agressivas e também comprovando que a erosão antrópica é a pior de todas, temos a falar das enchentes e voçorocas, de lixiviação dos solos e a já tinha citada vulnerabilidade às geadas que são corolário de todo desmatamento. A devastação e a retirada da cobertura vegetal influem no ciclo da água, nas correntes das fontes no regime aquático e de chuvas. São ocorrências que mostram bem os impasses sem saída produzidos pelo ímpeto capitalista.

Atualmente, da grandiosa floresta plúvio-tropical do Norte restam o Parque Nacional do Iguaçu e uma ou outra pequena Reserva como a de Fênix, onde se encontram as ruínas da cidade espanhola de Vila Rica do Espírito Santo. Note-se ainda que cerca de 17.000 há dessa mata, distribuída entre Quedas do Iguaçu e Três Barras do Paraná foi, após 1989, aniquilada com o beneplácito das autoridades florestais do país. O "nomadismo destruidor" de que falou Alberto Torres vem confirmar que todos, do donatário ao fazendeiro, firmaram como norma o saque à natureza, o lucro como estímulo à ação do homem sobre a terra(24).

Keith Thomas, Warren Dean lembram que a responsabilidade cabe a muitos: a camponeses, madeireiros, pecuaristas, cafeicultores, industriais, mineradores e também, o próprio Estado-Nação(25).

A Região Norte do Paraná esteve à margem do Paraná Histórico até o final do século XIX. Passado aquele primeiro entusiasmo do pequeno ciclo de ouro de lavagem que conduziu o povoamento de Paranaguá à Curitiba, durante os séculos seguintes e boa parte do Império, o Paraná era a 5ª comarca de São Paulo, segundo alguns autores um simples caminho entre o Sul e o Sudeste e Centro do país. Obstáculo geográfico a ser vencido em dias de marcha pelos viajantes, a posse do Território paranaense, segundo o estipulado em Tordesilhas, era (excetuada pequena faixa litorânea) dos espanhóis.

Foi na região do Guaíra que onde hoje mencionamos a Reserva de Fênix, o espanhol Ruy Dias de Melgarejo fundou a Vila Rica, ainda no século XVI, no ano de 1580. Além deste, outros estabelecimentos espanhóis como a Ciudad Real e Ontiveiros, se uniram às missões jesuíticas que mais tarde aí se estabeleceram, entre elas Nossa Senhora do Loreto ou Santo Inácio Mini.

 

Os planos espanhóis de atingir o Atlântico pelo litoral paranaense se chocaram com os projetos portugueses de se utilizar da bacia do Paraná-Paraguai para atingir Potosi, na Bolívia, com toda a sua prata. Mais que isso, os bandeirantes paulistas (entre eles Antonio Raposo Tavares e Manuel Preto) destruíram já na 1ª metade do século XVII os estabelecimentos civis e as reduções jesuíticas espanholas do Guairá. Essa ação que redundou em proveito territorial para o Brasil teve como sempre uma motivação econômica: os terríveis "mamelucos" estavam à procura de índios para escravizar e vender em mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e outros. Após a citada "razzia" bandeirante o Norte do Paraná ficou abandonado até que uma seqüência de acontecimentos colocou a região em evidência, reativando a disputa ibérica por sua posse.

A descoberta do ouro nas Minas Gerais no último quartel do século XVII irá movimentar todo um mercado interno e ao Paraná caberá, de início, o papel de caminho para as tropas que do Sul demandavam as Gerais.

A fundação da Colônia do Sacramento, vizinha à atual Montevidéu, pelos lusos, é outro capítulo da disputa territorial e reforçou a condição do Paraná como ponto de passagem para as tropas de muares, por exemplo, fazendo a conexão do sul (zonas criadoras do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina) com o mercado mineiro.

A condição de caminho se comprovará com a abertura em 1720-30 da rota que de São Paulo partia para o Rio Grande do Sul. Em todo aquele que era território paulista nesse século XVIII, Sorocaba será importante feira de muares e do lado do atual Paraná, Ponta Grossa, Castro, Jaguariaiva, Palmeira, Rio Negro e Mafra (esta última na divisa com Santa Catarina) são cidades que mostram um povoamento oriundo do tropeirismo. Mas conforme se avançada no século "do ouro": foram sendo requeridas sesmarias ao longo do citado caminho e no dizer de Bernardes, sucederam-se os currais(26).

O Tratado de Madri (1750) deslocou todo um foco para o Paraná, cuja parte norte, sem ocupação dos brancos, não só abria uma lacuna entre São Paulo e o Paraná Velho, de Paranaguá e Curitiba, como punha em risco a posse do que é hoje Mato Grosso do Sul e, naturalmente, o Sul como um todo. São Paulo era considerada como a "porta" para as Minas Gerais e a interrupção das demarcações do Tratado pela guerra guaranítica, ao que tudo indica, incentivada pelos jesuítas espanhóis, abriu espaço para a tentativa que iria se desenrolar a partir do governo Morgado de Mateus.

A partir de 1765, D. Luís Antonio de Sousa Botelho Mourão deu início a todo um plano de militarização e povoamento que visava, em primeira análise a estender as fronteiras "naturais" do Brasil para o sul, até o Prata e para o oeste na direção do Paraguai. É lógico que participando da indecisa fronteira meridional, o norte paranaense era "Terra de ninguém", ou melhor de índios, que precisava ser explorada, conhecida e ocupada(27).

Esse capitão general que "sonhou" com uma agricultura "à moda do Reino" com adubos e arados, afirmou que nesses lugares "todos caíam no engodo do mato virgem". Procurou garantir o litoral fundando uma fortaleza na Ilha do Mel, fronteiriça à Paranaguá, no território do atual Mato Grosso fez erguer o presídio do Iguatemi. Para o Norte mandou muitas expedições de exploração e reconhecimento da rede hidrográfica, tanto que o rio Ivai era antes chamado rio D. Luiz. O seu parente Afonso Botelho de Sampaio e Souza explorou a região norte, chegando ao rio Grande (atual Paraná), entrando em contato com os índios da região (de início, encontros amistosos). Diogo Pinto realizou a descoberta dos Campos de Guarapuava e uma dessas "bandeiras" chegou às ruínas de Vila Rica, onde até se intentou estabelecer um povoado.

Com a decadência do ouro, no final do século XVIII, a economia paranaense voltou a ser de subsistência e, ainda que se tenha avançado em direção ao 3º Planalto aquela "Marcha para o Oeste" incentivada pelo Estado Novo, nem sequer se anunciava.

O século XIX seria marcado por aquela atividade que sustentou a emancipação do Paraná face a São Paulo, em 1853. Referimo-nos à erva-mate que antes era uma produção doméstica e de consumo local. A "congonha" e a madeira viriam a dar à Mata das Araucárias o sentido que completou o quadro econômico do Paraná Histórico.

O Rio de Janeiro era o principal empório para onde ia o mate e de onde vinham as mercadorias estrangeiras vendidas aos comerciantes paranaenses. A partir de 1820 o produto começou a ganhar o mercado de Buenos Aires. Pelas pautas de importação entre 1851 e 1885 assinalava-se seu progressivo aumento com relação às madeiras e ao arroz pilado(28).

Aliás, 1885 foi o ano da inauguração da estrada-de-ferro Curitiba – Paranaguá. Os caminhos intransitáveis onde somente mulas treinadas resistiam à subida da serra do Mar levou à construção dessa ferrovia, inaugurada com a finalidade de dar escoamento ao mate e também às madeiras do interior. Seu percurso de 110Km compreende 15 estações, 41 pontes e viadutos, 32 pontilhões, 13 túneis. Da estação Marumbi, no Km 59, podemos ver o Pico do Marumbi, com seus 1.547 m, centro alpinístico do Paraná, com sua vegetação primária intacta. Anterior à ferrovia, a rodovia das Graciosas, ligando Curitiba à Antonina (1873) preencheu também essa importante lacuna quanto ao transporte. Até então eram exportadas principalmente madeiras do litoral (cedro, embuia, canela-preta, sassafraz, carvalho, peroba). Agora, tal exploração atingia também as matas do interior, no caso as citadas Matas de pinhais.

O Norte do Paraná, ainda esquecido e coberto por uma floresta tropical, voltou à evidência com a Guerra do Paraguai. O perigo representado pelos "confinantes vizinhos" trouxe, segundo Muller, a necessidade de se estabelecer povoações que ligassem as províncias do Império com Mato Grosso e representassem um posto avançado para as pretensões de Solano Lopez(29). Assim surgiram a colônia militar do Jataí (1855) e, logo em seguida, a povoação civil de São Pedro de Alcântara que, unidas, hoje formam Jataizinho. O pinho era utilizado nas barricas que condicionavam o mate e o crescimento das serrarias foi sintomático: 10 por volta de 1854, 64 em 1896 e 174 em 1920.

O apogeu da atividade madeireira posterior à 1ª Guerra Mundial ocorreu quando a cafeicultura estava começando a crescer nas terras do Norte do Paraná e com relação ao Norte Novo e Novíssimo, o grande papel coube à Companhia de terras do Norte do Paraná, capitais ingleses empregados na região desde 1925.

A própria nomenclatura consagrada no Paraná diz respeito à ocupação traçada pelo café. Norte Velho é como se conhece a área compreendida desde a divisa com São Paulo até o Tibagi ou Cornélio Procópio. Abrange uma área de ocupação espontânea iniciada por mineiros mas movida principalmente pelos paulistas e cuja grande busca era pelas terras roxas. 1920 é a data limite pois a partir daí o Estado começa a interferir no processo.

O Norte Novo entre o Tibagi e o Ivaí começou a ser ocupado entre 1920 e 190, acelerando após a 2ª Guerra Mundial. É nessa época que avultam os grandes projetos de colonização desenvolvidos pela iniciativa privada e entregues às grandes Companhias como a CTNP de Lord Lovat. Paralelamente, o movimento para o ocidente incentivado por Getúlio Vargas, vai resultar na ocupação do sudoeste por pequenos agricultores gaúchos e, também, catarinenses.

A imigração estrangeira começa a ser estimulada e vai atrair para o Paraná italianos, japoneses, polacos, alemães, ucranianos e outros, todos motivados pelo "bom cafeeiro" o que permite que se diga como já é uso comentar: "No Norte do Paraná todos os brasileiros e todos os estrangeiros, se encontram". O Norte Novíssimo é a área que vai do Ivaí até ao Paraná e Piqueri e alcança o Iguaçu, no extremo-oeste paranaense, ocupada após 1940. Umuarama, Paranavaí, fazem parte dessa "onda" que se encerra por volta de 1960 com o fim do expansionismo cafeicultor e quando as frentes "pioneiras" se encontram. "Pioneirismo" é aqui entendido como esse processo de ocupar terras que, ressaltadas as características de "sacrifício", "desbravamento", bandeirantismo retomado, acabou por conferir "identidade" ao Norte do Paraná. Segundo Ana Cleide Cesário era de um tal pressuposto ideológico que a região necessitava para fazer frente ao desdém que os do Paraná "Velho" sempre reservaram aos "pés-vermelhos" em sua "rarefação cultural"(30). Entre muitas interpretações para o movimento, o que avulta é que foi o café o responsável pela deslocação de um núcleo capitalista que a partir do Sudeste colonizou o Norte paranaense(31).

3. Norte Novo do Paraná: novidades ou repetição de velhos procedimentos?

Assinalamos que o café fez desmatar séculos em apenas algumas décadas, configurando-se com isso como o maior agente da derrubada das matas e, consequentemente, da morte e desalojamento dos índios.

No Paraná a lavoura do café não teve aspectos de lavoura perene, estando sujeita a momentos de crise, a super produções cíclicas. Devido a tais oscilações, os altos preços estimulando a produção e os baixos desencorajando, pode-se dizer que o café era sobretudo uma "cotação na bolsa de Londres ou Nova York", como se assinala no n.12 da Revista Pau-Brasil. No momento atual em que se está tentando o retorno do café às velhas regiões produtoras, a conjuntura é outra mas as divisas (dólares, libras esterlinas, outras) e a política (viabilizar exportações para abater dívida externa) continuam.

Entre 1920 e 1962 o Paraná saltou de 7º para 1º produtor nacional, sendo que nesse início da década de 60,44% da área total do estado estava ocupada com essa cultura e sua participação na economia nacional era da ordem de 62%.

A estrada-de-ferro Sorocabana que partiu de São Paulo representou a "porta-de-entrada" para o Paraná. Em território paulista, Ourinhos, que surgiu de uma vila de trabalhadores que em 1905 trabalhavam no desmatamento para o assentamento dos trilhos dessa ferrovia, ligou-se naturalmente ao Paraná, tanto mais que é banhada pelas águas dos rios Parapanema, Pardo e Turvo. Também fundada em 1905 é a antes chamada Cidade Fraternal onde a estrada-de-ferro também abriu caminho para a chegada do café. Eis porque a atual Assis também é conhecida como ponta de lança para a colonização do norte paranaense.

A marcha do café foi "réquiem" da floresta plúvio tropical, cujos números anotados por Mack são definitivos: Em 1800 havia 201.203Km2 de floresta primária número que caiu para 167.824Km2 em 1890, ou seja 83,41% do total. Em 1930 a cifra já era 129.024Km2 com 38.800Km2 de mata devastada (64,12%). Em 1950 restavam 79.834Km2 o que eqüivale a dizer que 87.990Km2 de mata virgem tinham desaparecido, restando apenas 39.67%. Em 1965 48.136Km2 de matas virgens remanesciam, tendo já desaparecido 119.688Km2 de cobertura vegetal. Nesse ano 23,92% de florestas primárias era o que restava para o Paraná e a etapa cafeeira ainda não havia sido vencida. Segundo o inventário de florestas nativas do IBDF em 1980 147.853Km2 de matas virgens já haviam sido erradicadas, total que representa uma área maior do que os atuais Grécia (131.985Km2), Nepal (141.415Km2) ou Tadjiquistão (143.100Km2). Só o esgotamento da fronteira poria fim à marcha, determinando seu encaminhamento para outras terras disponíveis, passíveis de sofrer o mesmo processo.

A colonização do Norte, portanto, foi feita em função da "operacionalização do lucro fácil", repetindo-se a conhecida história de caça aos solos férteis encobertos de florestas primárias. As queimadas tornaram viável a derrubada da mata com um mínimo de capital e, por alguns anos, a fertilidade das cinzas recompensava o agricultor. O esgotamento das terras e a redução dos índices de produtividade levaram à procura de outra área de terras, pois que abandonar os solos cansados compensava mais do que reaproveitá-los. Melhorar as técnicas, num tal modelo, era o recurso procurado quando não restasse mais para onde ir e assim mesmo dentro de uma visão imediatista(32).

Hoje novos rumos estão sendo traçados, principalmente pelas cooperativas. Atribuídas aos imigrantes europeus e asiáticos que para cá vieram durante o "bom" do café, tais grupos se organizaram racionalizar a produção e atender aos que estavam chegando. Uma primeira razão tem sido apontada para seu aparecimento: dado o desconhecimento da língua portuguesa, os imigrantes poderiam ser ludibriados quando da comercialização de sua produção agrícola(33).

Da Cooperativa Agropecuária Batavo, fundada em 1935 pelos holandeses de Carambeí, no município de Castro, partiu a técnica do plantio direto, apontada como uma alternativa preferível aos agressivos "defensivos agrícolas". Nessa forma de agricultura o solo não é revolvido com tratores muitas vezes mais adaptados a solos temperados que aos nossos, nem com o arado. Ele fica coberto o ano todo, protegido contra ventos e chuvas. 90% da área plantada da Batavo adota esse procedimento, deixando no chão os restos da colheita e aguardando a decomposição dessas matérias orgânicas para obter um preparo "ecológico" pois não degrada a terra, antes a protege da ação erosiva. A produtividade parece compensar: 3t/ha enquanto a média nacional, com a técnica costumeira é de 1,7t/ha(34).

A teoria afirmada por San Martin, de que a Revolução Verde foi um "pacote" a nós impingindo por países como os EUA que assim quintuplicaram suas vendas, parece se confirmar quando aos aspectos nocivos quando ouvimos depoimentos como o que ouvimos do Secretário de Saúde de Marilândia do Sul, Luiz Feliciano da Silva. Dinâmico professor e ex-vereador, nosso entrevistado preocupa-se sobremaneira com as ocorrências de envenenamento por agrotóxicos, primeiro lugar quanto a problemas de saúde em seu município.

O que ocorre é simples: o pessoal dessa cidade hortifrutigranjeira, conhecida como capital da cenoura, faz muito uso de pesticidas e inseticidas fortíssimos, mas não sabe manejá-los adequadamente. Onde jogar ou como reaproveitar os vasilhames é uma decisão de funestas conseqüências. Muitas vezes eles são largados no campo, em uma curva de nível. À primeira chuva ou vento forte passam para o rio que corre por perto e isso levou ao fato de que o Bonito, o Ribeirão Santa Cruz, o Eldorado, o das Pedras se encontrarem contaminados. Quanto a isso se acrescenta a falta de proteção que a exitinta mata ciliar proporcionava, tem-se exata dimensão dos malefícios causados. Boas intenções mal informadas também causam danos. Foi o que ocorreu por volta de 1988, quando Osmar Dias, irmão do senador eleito, faz o Programa Pró-Várzea. Ele pretendia que se aproveitassem espaços nas barrancas dos rios para o plantio e para isso doou sementes, conseguiu financiamentos do Estado.

E, o que deu errado, podemos perguntar? Foi quebrado o ciclo biológico. Falando apenas das rãs, atingidas por tal mudança, seu desalojamento provocou a proliferação descontrolada dos insetos e grandes "nuvens" de pernilongos inviabilizaram a iniciativa. O mesmo secretário relata que também há uma década atrás, um agricultor da região resolveu acabar com as pombas que devoravam seu trigo. Com essa finalidade envenenou parte da sua plantação e o resultado foi que as pombas e até as pessoas que têm o hábito de comê-las assadas, os rios, tudo foi contaminado.

Os vasilhames vazios são aproveitados para dar de beber ao gado, alguns tomam até água neles. Muitas mortes podem ocorrer por causa disso. A maioria dos agricultores, ainda, usa os agrotóxicos sem se proteger. Se a aplicação é feita num momento em que está ventando, a contaminação é rápida. Isso seria evitado com luvas e máscaras que, porém, não são de uso habitual.

Para finalizar sobre as conseqüências dessa incursão forçada à modernização, resta lembrar casos de intoxicação sucessiva que podem trazer cegueira, problemas mentais, amnésia, destruir a flora intestinal. Na pele, o uso inadequado faz com que a pessoa não possa mais se expor ao sol e qualquer um pode avaliar o que isto acarreta ao agricultor.

No início e apogeu do processo de loteamento de terras no Norte do Paraná, a Companhia de Terras Norte do Paraná, depois de 1944, Melhoramentos, insistia em operar com lotes urbanos e rurais de pequeno ou médio porte (de 20 a 100 ha). Como as outras iniciativas imobiliárias no setor se orientaram pelos seus procedimentos, muitos autores atribuíram a esse sistema o dinamismo do Norte ou, além disso, pensaram em fuga ao histórico modelo do latifúndio.

Alguns fatos parecem confirmar a hipótese. Assim, se em São Paulo, ser colono significava trabalhar como assalariado nas grandes lavouras de café, no Paraná da "época de rastelar ouro", o colono era um produtor rural independente porquanto proprietário de seu próprio "pedaço de chão". Além disso, os costumeiros conflitos ou grilagem não aconteceram em áreas de colonização da CTNP que, ao que se apregoou, chegou a pagar até três vezes por um lote caso sobre ele subsistissem dúvidas.

A ação da Companhia que entre 1934 (Londrina) e 1955 (Umuarama) levou à formação de núcleos urbanos como Apucarana, Arapongas, Astorga, Cambé, Cianorte, Cruzeiro, Jandaia do Sul, Loanda, Mandaguaçu, Mandaguari, Marialva, Maringá, Nova Esperança, Sabáudia, Sarandi, São João do Caiuá, Terra Boa, é realmente impressionante. O "rush" populacional para a região foi, também, de iguais proporções: paulistas de Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto, mineiros, nordestinos, imigrantes de 30 nacionalidades diferentes (12,5% de italianos, 7% de japoneses, 6% de alemães). Dos 500.000 alqueires adquiridos no início, das melhores terras roxas entre os rios Paranapanema, Tibagi e Ivaí, 1117 mil já tinham sido vendidos até 1943 e em 1953 a cifra chegou a 400 mil alqueires. Propaganda eficiente, facilidades para adquirir os lotes (prestações de até 4 anos com juros de 8%), patrimônios bem planejados, infraestrutura providenciada (a ferrovia), estabelecimentos de 15 em 15Km, tudo contribuiu para o sucesso dessa política imobiliária. Detalhe importante para ser aqui lembrando é que a todo comprador era exigido que reservasse pelo menos 10% da área adquirida para reserva florestal. A partir dos primeiros anos tal exigência de preservar o meio ambiente passou a ser burlada e o mecanismo era simples: repartir as terras entre os herdeiros, por exemplo, reduzindo-se com isto as áreas de preservação.

Se todo o prejuízo a natureza tivesse sido compensado com uma distribuição mais democrática, amenizada a concentração fundiária tradicional entre nós, haveria um consolo perante a realidade. Mas, a se depreender do que pensam autores como Francisco Paz essa "saga" não teve nem confirmação, nem final feliz.

Antes mesmo da modernização "dolorosa" que na década de 80 fez a população do Paraná regredir 1%, acarretada pela volta do latifúndio, entre outras causas, a especulação imobiliária já se instalava no Norte. Evidência disso é que, entre 1946 e 1956, 80% dos lotes vendidos voltaram a ser negociados no prazo de mais de três anos. Já em 1961, 50% dos lotes foram vendidos em dois anos e 33% dos compradores revenderam dentro de apenas um ano.

Para Francisco Paz, ainda, a propriedade pequena ou média nasceu sitiada pela grande propriedade e mais que isso era um complemento que só foi viabilizado numa época em que isso era interessante ao capital(35). Sandino Hoff que com ele concorda acrescenta que essa foi a fórmula encontrada pela CTNP para acumular capitais, pois assim que se elevou a sua composição, tal prática deixou de existir. Cita como exemplo Maringá, que na década de 50 assinalava mais de 20% de lotes de mais de 100ha. O ponto comum entre esses dois autores é que a "democratização" de 1930 a 1950 foi apenas uma forma de superar obstáculos que o capital encontrou em sua marcha de desenvolvimento de forças produtivas(36).

Outro dado que chama a atenção diz respeito aos índios, muitos deles encontrados na floresta além de Apucarana ainda em 1930. O desprezo tradicional e a "limpeza" de terras que os atingiu, aconteceram com grande violência. Kaingangs ou guaranis, xókleng ou botucudos, xetás, vários outros grupos foram afastados da região. D. João VI (1808) chegou a declarar guerra aos bugres e botucudos do Paraná legalizando o seu extermínio. Nesse início de século XX os xókleng fugiram para Santa Catarina onde hoje vivem, no Posto Duque de Caxias. Os kaingángs que haviam sido atingidos pelas bandeiras organizadas pelo Morgado de Mateus, foram os grandes expulsos dos Campos de Guarapuava. Remanescentes deles podem ser vistos, ocasionalmente, em Maringá, vendendo artesanato e armas típicas. Os Xetás descobertos em 1953 já em 1960 tinham sido extintos como nação.

Tudo nos autoriza a afirmar que o Paraná contribuiu com seu quinhão para o extermínio indígena em âmbito nacional. Os últimos grupos foram alcançados pelas frentes expansionistas da cafeicultura e os "bugreiros" modernos, contratados pelas grandes Companhias, de várias formas "livraram" a terra da presença indígena. Repetindo a consoladora frase dos jesuítas, muitos deles alcançaram a "Terra sem Mal" (mito guarani) pela forma da morte.

A indenização de caboclos e posseiros, aqueles que abandonavam, segundo a lembrança de pioneiros, seus ranchos, à medida que a colonização avançava é outro ponto problemático. Joffily, por exemplo, sugere que a CTNP trabalhou o espaço por quatro anos, entre 1925 e 1929, antes de começar a operar com segurança.

Negociatas e facilidades absurdas concedidas pelo governo às Companhias completam as denúncias de Joffily. Este autor afirma que, se de um lado, Afonso Camargo se tornou proprietário do bairro londrinense do Jardim Changri-la, de outro, Caio Machado, diretor de "O Dia" de Curitiba foi entre 1926 e 28 condenado a 20 meses de prisão pela denúncia que fez do fato. O jornalista ainda teve de arcar com uma multa de 10 contos de réis...(37)

Ana Cleide Cesário lembra que o direito à terra tão ressaltado quando se mencionam na práticas indenizatórias da CTNP diz respeito à chamada propriedade legítima, ficando em branco o afastamento daqueles que até então tinham o acesso de fato à terra, como é o caso dos posseiros(38).

As análises se completam com aqueles que acreditam que a frente pioneira que atingiu seu apogeu em 1950 e anos seguintes, pode ter significado uma válvula de segurança que adiou o debate sobre a estrutura fundiária. Para esses autores a pequena e média propriedade representou a solução do momento que a racionalidade permitiu, unindo os interesses das Companhias e do Governo. Os que assim pensam vêem na herança de tal prática um caráter mascarador que fica claro quando se observa que o projeto dos trabalhadores sem terra do Paraná ainda não é "claro, asséptico"(39) e inclui algumas contradições. A tudo, enfim, perpassa o sistema de valores de um capitalismo que pode ser arranhado, mas continua sustentando toda uma mentalidade. A pergunta final é, a nosso ver, concludente: na prevalência dos mesmos agentes, em suma, dos mesmos interesses, fiéis ao mesmo propósito, existem soluções viáveis? A tendência mais atual é mostrar que os povos indígenas carregam milênios de uma cultura diferente mas nem por isso inferior.

A crítica ao conservacionismo tradicional, calcado no modelo norte-americano de "parques-vitrines" também se impõe, parecendo inútil construir ilhas de conservação para o desfrute das populações urbanas, "enquanto fora delas se destrói tudo(40).

Da mesma forma que reunidos nos 15 postos administrados pela FUNAI os índios do Paraná são seres humanos sem plena autonomia, por mais elaborado que seja um projeto jamais conseguirá reconstruir toda uma floresta primária. Aqueles "clones" por nós mencionados não são possíveis. O que mais temos são as matas secundárias que acontecem com as capoeiras e capoeirões. A experiência de florestas homogêneas, as tentativas de agrossilvicultura, algumas bem sucedidas, como é o caso dos Dhagga da Tanzânia podem ser mencionadas. Mas, a verdade, é que nada ainda se mostrou capaz de reconstruir uma floresta destruída num ecossistema que inclui minúcias e funcionamento inimaginados.

O extrativismo sustentável, que pretende tirar da floresta apenas o que ela pode repor esbarra no mesmo obstáculo de todos os tempos. Isso se demonstra na resposta que Rainol Grecco, um dos maiores madereiros do Brasil, para uma pergunta formulada em 1975:

- Você já pensou nas conseqüências? - A conseqüência é o lucro. O desrespeito à memória pré-histórica se une à submersão de animais e metas inteiras. Itaipu que inundou 1.529 km2 do lado brasileiro apenas, faz jazer sob seu grande lado as ruínas da Ciudad Real del Guairá e Ontiveiros. A destruição de uma das maravilhas do mundo, Sete Quedas, foi mais estarrecedor, ainda. E pensar que Otávio Marcondes Ferraz afirmou, em 1964, que havia planejado uma barragem menor mas que deixaria intacta as Sete Quedas(41).

A sua reflexão do que o Brasil é um país de fatos consumados e contribuintes submissos podemos, em nome de uma sensibilidade retomada, de um novo olhar ensejado em nosso curso de "Elementos de Educação Ambiental" (aula de 23/09/1998) lembrar Drumond:

"Sete Quedas por nós passaram

e não soubemos amá-las.

E todas as sete foram mortas

E todas as sete somem no ar.

Sete fantasmas, sete crimes,

Dos vivos golpeando a vida

Que nunca mais renascerá."(42)

E pensar que isto aconteceu num Estado que teve o 1º Código Florestal do país e onde, ainda em 1878, André Rebouças pedia a criação dos Parques Nacionais das mesmas Sete Quedas e também do Iguaçu.

A mesma máquina que movimenta a aprovação da mídia e que, segundo Pierre Bourdieu esconde uma manipulação oculta(43) se encontra subjacente ao que foi dito por José Sarney em 1972: "Que venha a poluição, desde que as fábricas venham com ela". Pois, afinal, "A pior forma de poluição é a pobreza".

Conflitos de terras, "clientelismo", jagunços violentos, políticos corruptos que mercê disso fizeram fortunas... Interesses que merecem uma citação na modinha composta por Juca chaves no governo Kubitschek e que envolve um grande empresário e governador do Paraná:

"Vamos fazer contrabando,

contrabando de café,

vou montar um novo bando,

vou dizer como é que é.

Basta ser homem de idade

Do ex-Distrito Federal,

Frequentar a sociedade

e a coluna social.

(...)

Se, porém, o presidente

descobrir a situação.

é fugir urgentemente

para a Europa de avião.

Foi assim, com tal pretexto

que Lupion voou para lá

depois de vender um sexto

do Estado do Paraná."

4. Conclusão

É fácil criticar, na medida em que é impossível não ser criticado. O campo em discussão é relativamente novo e variáveis inesperadas podem interferir no discurso recém-elaborado. Delicado organismo em construção, sem o domo de "homeostase", a questão ambiental pode ser problemática, principalmente quando se trata de superar alguns revisionismos menos informados ou reducionismos simplificadores.

A ousadia torna vulnerável. Assusta-nos, ainda, a advertência de Giuseppe de Lampeduza: "Algo tem de mudar para que tudo continue na mesma." Mais que isso, é preocupante saber que o "Discurso da Servidão Voluntária" data de 1580... Quase ninguém mais moderno, não no sentido em que esta condição se opõe à pós-modernidade ou, mais atualmente, a seus críticos. Situamos nosso parâmetro entre Arendt ou Hobsbawn? Seremos ambientalistas de vanguarda ou apenas conservacionistas? Defenderemos políticas de Estado ou confiaremos à criatividade individual a busca de soluções?

 

Nos mesmos discursos que optam pela preservação, encontramos aproximações econômicas ou utilitaristas. Aliás, estamos cercados delas. Sem por em discussão um tema pátrio, com toda sua valorização simbólica, lembraríamos o Hino de nosso Estado, instruído em 1947 e onde se afirma que "outrora éramos apenas panorama de campos ermos e florestas."

Opiniões divergentes já acontecem há mais de cem anos. Assim, 1897 dois autores se confrontam quando se trata de comentar as queimadas. Para um deles, "nessa principal fonte de vida, as florestas" estavam sendo diariamente sacrificadas ao fogo que nelas se lançam em agosto e setembro. Já no julgamento de um outro, não se trata de "fataes" mas sim de necessárias queimas, uma vez que é o único método praticável na maior parte de nosso território. E, o que é mais inquietante: afirma que por toda a parte existem tantos matos, que não há porque receiar "que um dia venham a faltar..."(44).

Onde está Goethe com o novo olhar que se pretende ver surgir? Vêm-nos à mente o grande silêncio que Tucídides reservou para os deuses da Grécia. O ímpeto que levou de roldão as Araucárias já mudou sua direção para a "última fronteira". Será possível que de nós partam mudanças, não obstante o sistema comum e arrasador? Lembramos a turma do Greenpeace lutando contra as explosões atômicas francesas nos atóis do Pacífico há um ano atrás. Os franceses devem, então, ter-se perguntado: "Por que só nós não podemos explodir tais bombas, realizar nossos testes tão "sossegadamente" quanto outros?(45) Vale deixar como uma constatação final outra ameaça, não tão evidente como a nuclear, mas potencialmente destrutiva. Lembremos o artigo: "Planta transgênica deverá ser rotulada no Brasil" (Folha de São Paulo, 15/12/1988 5-5). Por ele ficamos sabendo que, para que possa ser cultivada e comercializada no Brasil a soja transgênica Roundup Ready (da multinacional Monsauto) terá de ser totalmente segregada da soja comum e rotulada em todos os seus produtos. O objetivo inicial é de ocupar de 2 a 4% de toda a área cultivada com soja por esse produto. A perspectiva de ir ganhando espaços vem assinalada, juntamente com a justificativa que o preço será mais baixo.

Como o tom final que procuramos ficam as palavras do economista Steve Sonha, diretor do Laboratório Nacional de Pesquisas quanto a isto nos Estados Unidos: "Os mercados mundiais são lago muito poderoso, as coisas se ajustam naturalmente, conforme o que representar melhor os interesses da comunidade internacional. (...) "Uma commodity é uma commodity e, no final, o preço da soja vai ser único no mercado mundial..."

Sintomaticamente o artigo não se estende aos perigos e desvantagens que podem ser acarretados por um produto transgênico, que levaram países europeus, como por exemplo a Inglaterra, a proibir sua venda e consumo.

 

5. Notas Bibliográficas

(1) WRI: World Resouces Institute o WWF: World Wildlige Foundation. GUBERT, F. F. A. O planeta perde florestas em ritmo acelerado. In: Cadernos de Biodiversidade, n.1, julho de 1998, p.5.

(2) Comissário de terras na 2ª década do séc. XIX no município de Tibagi, se referia especialmente aos métodos irracionais e predatórios usados na região.

(3) THOMAS, K. O homem e o mundo natural. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

(4) Caio Prado Júnior cabe a primazia desta visão que se encontra, ainda muito presente entre nós conforme demonstra cabalmente o Prof. Dr. Claudinei M. M. Mendes In: ALVES, Paulo (Org.). Ensaios historiográficos. Assis: Autores, 1997.

(5) Índios do Paraná. Publicação do Deputado Estadual Dr. Rosinha PT/PR, no dia do índio, 19 de abril de 1997, organizada por Kimie Tomasine e outras.

(6) O antropólogo Viveiros de Castro participou do ciclo "A outra margem do Ocidente" na FUNARTE/98. O artigo citado "Tão humanos quanto os animais" foi publicado no Caderno Mais! Da Folha de São Paulo, 16/08/1998, 5-10.

(7) GOUREVITCH, A. Y. O tempo como problema de história cultural. In RICCOUR, P.(Org.). As culturas e o tempo. Petrópolis: Vozes, São Paulo: EDUSP, 1978.

(8) BERTACHINI, M. L. O decênio Morgado de Mateus (1765-1775). Experiência de governo instruída pelo Marquês de Pombal. Dissertação de Mestrado, PUC/SP, 1980.

(9) A entrevista do "shabori", isto é, jovem pajé, Davi Kopenawa foi anotada pelo antropólogo Bruce Albert. In: VALADÃO, W. M. ; AZANHA, G. Senhores dessas terras. São Paulo: Atual, 1991, p.67-9.

(10) Por decreto do presidente Sarney (janeiro de 1990) uma área de 506.186 ha no Alto Juruá foi transformada em reserva extrativa. Outras foram criadas no Acre, Amapá, Rondônia, sempre incluindo escolas de 1º Grau, Postos de Saúde e cooperativas para os seringueiros.

(11) Carajás é considerada a maior província mineral do mundo abrangendo mais de 50km de raio, podendo ser explorada por cerca de 500 anos. Implantado entre 1980 e 86 pela hoje privatizada Vale do Rio Doce inclui a exploração de ferro, manganês, cobre e níquel, dos quais primeiros destinam-se à exportação.

(12) São da década de 80 descobertas e caos que comprovam o delicado equilíbrio de um ecossistema. O excesso de utilização em grandes áreas de um único tipo de pastagem (a braquiária) acabou por transformar a cigarrinha numa praga de grandes proporções e difícil controle, ofensivas sobretudo às plantações de arroz e milho na Amazônia. O lago de Tucuruí foi o responsável por uma praga de mosquitos que atingiu 2.000 famílias. Essas muriçocas obrigaram o prefeito da localidade paraense a decretar estado de emergência no município. Por outro lado, um cientista da UNICAMP de Campinas descobriu que algumas árvores da Amazônia, quando se vêem atacadas por determinados fungos, lançam no ar uma substância que atrai formigas, estas devoram os fungos e devolvem saúde à árvore.

(13) Para alguns a Amazônia é, quando muito, um "filtro", para outros, como o professor e geógrafo Aziz Ab’Saber essa afirmação é emotiva demais.

Concordando com ele temos o geógrafo francês Pierre Goureu, autor de "Terras de Boa Esperança" que explica que foram os americanos que lançaram a idéia mas que o clima do mundo não depende do que acontece na Amazonia e sim da repartição de terras e dos mares. (cf. Folha de São Paulo, domingo 31/05/1998, mais! 5.11).

(14) WACHOWICZ, L. A. A educação no Paraná. In: História: Questões & Debates. Revista da Associação Paranaense de História, n.14, 15/12/1987.

(15) ANDRADE, M. C. de. O processo de modernização agrícola e a proletarização do trabalho rural no Brasil. In: Geografia, v. 3, abril de 1978, n.5, Associação de Geografia Teorética de Rio Claro, S. Paulo.

(16) Reinhard Maack viveu 46 de seus 77 anos de vida no Brasil. Seu Geografia Física do Estado do Paraná. Rio de Janeiro, 1984 é consulta obrigatória.

(17) A conjuntura internacional de preços, a concorrência dos cafés "finos" colombianos e a menor qualidade do café paranaense, além dos fenômenos naturais como a geada podem elucidar algo sobre o fim da expansão.

(18) GUBERT, F. F. A. Levantamento de áreas de interesse ecológico no Estado do Paraná. In: Cadernos de Biodiversidade, n.1, julho de 1998.

(19) DEAN, W. A ferro e fogo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

(20) HERTEL, R. J. G. História do Paraná. V.2, Grafipar, 1969.

(21) DIAS, G. F. Educação ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Global, 1998.

(22) GUBERT, F. F. A. Levantamento de áreas de interesse ecológico no estado do Paraná, p.142.

(23) HERTEL, R. J. G. História do Paraná. p.225.

(24) MACHADO, B. P. História regional do Paraná. In: Revista da Associação Paranaense de História. n.14, Curitiba: 15 de dezembro de 1987.

(25) DEAN, W. A ferro e fogo. p.307.

(26) BERNARDES, L. M. C. O problema das frentes pioneiras no Estado do Paraná. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro: IBGE, julho/setembro de 1953.

(27) Em sua dissertação de mestrado Lúcio Tadeu Mota chama a atenção para aquilo que a historiografia tradicional chama de "vazio demográfico" mas, na verdade, é antes o espaço habitado pelos índios, como por exemplo, os kaingangues. O mais adequado, então, seria dizer "vazio de brancos" não de povoamento.

(28) WESTPHALEN, C. M. et alli. Nota prévia ao estudo da ocupação das terras no Paraná moderno. Boletim da Universidade Federal do Paraná. Curitiba: 1968.

(29) SERRA, E. Os primeiros processos de ocupação da terra e a organização pioneira do espaço agrário no Paraná. In: Boletim de Geografia. UEM, ano 10, n.01, 1992, p.72.

(30) Ana Cleide Cesário In: PAZ, F. Cenários de economia e política. Paraná. Curitiba: Prephacio, 1991, p.44.

(31) Sandino Hoff In: PAZ, F. Cenários de economia e política, Paraná.

(32) VELHO, O. G. Capitalismo autoritário e campesinato. São Paulo: DIFEL, 1979.

(33) SERRA, E. Um pouco de História do cooperativismo agrícola no Paraná. In: Boletim de Geografia, UEM, ano 13, n.13, out. de 1993.

(34) Jornal de Serviço COCAMAR, 1ª quinzena, dezembro/97.

(34) PAZ, F. Cenários de economia. p.35. O autor acrescenta que a CTNP pretendia assegurar a propriedade do capital e executou a divisão de terras com o intuito de acumular capital para remeter dividendos aos acionistas ingleses e aplicar na industrialização.

(36) PAZ, F. M. Estruturas agrárias no Norte do Paraná. In: História: Questões & Debates. Curitiba: 5 (8) jun. 1984, p.100-1.

(37) PAZ, F. M. Cenários de economia e política. p.45.

(38) PAZ, F. M. Cenários de economia e política. p.119.

(39) SAN MARTIN, P. Agricultura suicida. São Paulo: Ícone, 1985.

(40) DEAN, W. A ferro e fogo. p.307.

(41) Esse diretor da Eletrobrás escreveu "Adeus, Salto de Sete Quedas" publicado ao Jornal da ilha Grande, Guairá, 24 de junho de 1982.

(42) ANDRADE, C. D. de. Revista Isto é. 22/09/82, p.36.

(43) Essa é uma idéia subjacente junto com outras importantíssimas considerações na obra de GRUN, M. Ética e educação ambiental. Campinas: Papirus, 1987.

(44) Consideração que permite fazer um paralelo com o caso amazônico, por envolver os mesmos "lobbies".

(45) Na Revista do Arquivo Público Mineiro de 1997, Leandro Gomes da Silva Werneck escreveu sobre o Alto Rio Doce. Ao abordar o que na linguagem popular se chama "preparo da roça" ele fala das malfadadas queimadas que além de levar as matas vão impurificando o ar e que a vegetação que cresce depois é fraca e raquítica, insuficiente para equilibrar o clima. Já o Dr. Antonio Augusto Velloso, ao abordar a "écoubage" afirma que esse meio fecundante já era conhecido dos antigos e que as capoeiras subsequentes são quase tão exuberantes quanto a floresta primária original. (p.115/572).

 

6. Referências Bibliográficas

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Número 1 -