"FAZER EDUCAÇÃO AMBIENTAL: COMO É ISSO?" RELATO DE UMA CAMINHADA INTERROMPIDA
Mara Glacenir Lemes de Medeiros
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Resumo:
Este artigo relata uma experiência de "Fazer educação ambiental". O trabalho foi realizado no âmbito da rede municipal de ensino (docentes) da microrregião da Associação dos Municípios do Vale do Itapocu (AMVALI) – Santa Catarina, visando a construção de uma Escola Amiga do Meio Ambiente. O objetivo é trazer reflexões sobre as práticas de educação ambiental no Brasil e contribuir com o relato de uma experiência.Palavras-chave: educação ambiental, bacia hidrográfica, problemas ambientais
Abstract: This article reports an experience of "making environmental education". The project was done within the scope of the public school system (teachers) in the region concerning the Association of the Cities of the Itapocu Valley (AMVALI) – Santa Catarina. The task aimed to construct a school called Environmental Friendly School. This paper intent to bring up reflections about practices on environmental education in Brazil and contribute with an experienced account.
Keywords: environmental education; watershed; environmental affairs
Para algo existir mesmo,...
— um deus, um bicho, um universo, um anjo...
— É preciso que alguém tenha consciência dele.
Ou simplesmente que o tenha inventado.
Mario Quintana
... as coisas vão mal tantas vezes e em tantos contextos diferentes, que muita gente começa a sentir que o seu próprio modo de pensar sobre o funcionamento do mundo é que deve estar errado. Waddington
1. Introdução
Apresentaremos neste texto o relato de uma experiência denominada Programa de Capacitação em Educação Ambiental para a Microrregião da Associação Dos Municípios Do Vale Do Itapocu (AMVALI) - SC, realizada no período de junho de 1995 a dezembro de 1996.
Hoje, em 1999, como estudante de mestrado do curso de pós-graduação em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, na Universidade Estadual de Maringá – PR, avalio que essa experiência esteve baseada numa prática simplificadora, imediatista do ponto de vista político e ecológico. Sem apoio financeiro, mas com forte caráter emotivo, esse trabalho tornou-se realidade, mas não passou de um marketing político-ecológico, depois das eleições de 1996. Todavia, apesar desse marketing, as pessoas envolvidas realizaram um trabalho sério e científico. Cabe lembrar as palavras do biólogo chileno, Maturana (1998), que disse: não há ação humana sem uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível como ato.
Essa experiência resultou do esforço de algumas pessoas, entre elas, biólogos, que acreditavam na emergência do novo paradigma para superar a crise ecológica (ver Capra, 1982 e Boff, 1996) e na possibilidade de "mudar posturas e comportamentos, valores culturais e ecológicos, modo de vida, etc.", de uma população, seguindo um receituário (teórico e prático) contendo fórmulas prontas, sugerido em Dias (1993), IBAMA (1993), Fundo Nacional do Meio Ambiente – FNMA (1995), Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente – ANNAMA (s.d.), e muitos outros, sem necessariamente passar pela complexidade das ciências ambientais ou tentar, primeiro, compreender as relações homem e natureza de outros pontos teóricos de interpretação como da filosofia, da antropologia e, da sociologia.
A partir do registro dos resultados do Programa de Capacitação, trazemos algumas reflexões sobre as percepções de educação ambiental (EA). Como disse Leonardi (1997, p.393): (...) importa avaliar todo o trabalho que a ela se relaciona, descobrir seus avanços, recuos e contradições. Assemelhando-se muito às demais experiências de Educação Ambiental que vêm sendo realizadas no Brasil, constatamos alguns problemas. Esses são problemas, que na perspectiva de Grün (1996), têm a ver com a cultura antropocêntrica que construímos ao longo da história do pensamento ocidental. Embora, diante do contexto de mudanças de paradigmas, ainda não conseguimos estabelecer uma discussão sobre os nossos valores éticos/culturais/ecológicos capazes de pensar e praticar a educação ambiental em uma dimensão científica.
2. Como vai a Educação Ambiental no Brasil? Bem, obrigado! A resposta é verdadeira ou falsa?
A literatura estrangeira e nacional, em linhas gerais, nos sugere que devemos salvar o planeta Terra e, para isso, existe uma nova área que chamamos de Educação Ambiental. Essa disciplina, que do nosso ponto de vista ainda carece de formulação conceitual, vem sendo praticada a qualquer preço sob várias rótulos (ambiental/ecológico/biológico), modalidades (cursos, treinamentos), metodologias, categorias, etc. e dentro da cultura escolar, que aliás, anda bastante comprometida. Para isso, é só verificarmos alguns títulos brasileiros que são utilizados como material de apoio para o desenvolvimento da Educação Ambiental, tais como: Educação Ambiental: princípios e práticas; Treinamento para professores e supervisores de primeiro grau e EA para professores e supervisores de primeiro grau (ciências); Guia do professor de 1º e 2º graus - série Educação Ambiental; Conservação e manejo de recursos naturais; Um guia sobre valores e EA; Glossário de termos utilizados em EA; Vivendo no ambiente: um livro de consultas para a EA (Dias, 1991), ou então, prestar atenção nestas frases e trechos de alguns autores:
Das dezenas de encontros de EA de que temos participado no Brasil, infelizmente o que se tem passado aos participantes é uma negra visão de impossibilidades, de teias complexas e intrincadas onde o professor não tem autoridade para circular. Deixa-se a impressão de algo inatingível, que requer grandes aprofundamentos e preparações elocubratórias, profundos devaneios epistemológicos, dialógicos.
(...) Mas os professores e a comunidade já estão praticando a Educação ambiental. Com suas deficiências e erros, inadequações e falta de apoio, estão indo. Afinal a pedagogia e as estratégias de ensino conhecidas são as mesmas utilizadas em atividades de EA Dias
(1991, p.12).Basta estarmos no planeta para que qualquer "lugar" possa se tornar um "espaço" para se praticar Educação Ambiental" (Matsushima, 1991, p.30).
Prezado professor e técnico: Você foi convidado a participar de um processo pedagógico inédito no País: dar início, através da educação, ao processo de construção do Desenvolvimento Sustentável (Silva, 1996).
Concluiu-se que a maior parte dos professores não consegue definir com clareza a Educação Ambiental e nem distinguí-la de ecologia. (...) Fazem trabalhos científicos didáticos para o ensino da ecologia e consideram estar aplicando Educação Ambiental de maneira contínua e progressiva. As conclusões acima demonstram que há necessidade premente de capacitar e reciclar os professores de 1o grau em Educação Ambiental (Espíndola & König, 1996).
Percebemos a importância dada à pedagogia, nestas três citações. Parece-nos que essa disciplina pode superar a crise ambiental, e até dar conta do "Desenvolvimento Sustentável". Então, cabe-nos perguntar: Que pedagogia é essa? Seria ela interdisciplinar, ou polidimensional?
Sem dúvida, salvo raras exceções, esse é o tipo de Educação Ambiental que passou a ser realizada em nosso país e assumiu o caráter de uma disciplina tanto quanto as outras que buscam transmitir ou treinar professores, crianças e jovens para ouvir termos como: "a Terra é nossa mãe", "jogue o lixo no lixo", "vamos reciclar lixo para proteger o meio ambiente"; "plante árvores, árvore é vida"; a Amazônia é o pulmão do mundo" etc., seja por meio de palestras ou de comemorações, tais como: o dia da árvore, o dia do índio ou da semana do meio ambiente.
Diante dessas colocações e de tantas outras (impossíveis de serem transcritas no momento), surgem-nos as primeiras perguntas, pouco inéditas, é claro, mas necessárias. Para que serve essa educação ambiental? Para quem serve?
Estas perguntas, lembram-nos Hannah Arendt (1992, p.115) quando nos disse: (...) sobre o interminável questionar utilitarista: "Para que serve servir?" E do biólogo chileno Maturana (1998, p.11) que ao responder à pergunta: A educação atual serve ao Chile e à sua juventude? Disse, que para isso, era necessário fazermos outras perguntas a questões como: O que queremos com a educação? O que é educar? Para que queremos educar?
Entendemos que os problemas inerentes à EA estão intrinsecamente relacionados ao paradigma ultrapassado, o qual se assenta o nosso sistema educacional. Para nossas reflexões, pontuaremos, algumas questões:
Dias (1991) em seu depoimento Os quinze anos da educação ambiental no Brasil, colocou que as tentativas de Educação Ambiental não andavam bem, pois o sistema educacional brasileiro não assimilava as novas idéias e que os órgãos ligados ao meio ambiente assumiram a questão para si, - o que não foi ruim, pois, do contrário, ainda estaríamos na estaca zero. Ainda, segundo Dias (p.9 e 11), a educação nunca foi prioridade no nosso país:
A única política educacional definida para o nosso povo, até então, havia sido a de tornar a educação inoperante, produtora de cidadãos passivos, omissos, covardes, incompetentes, apátridas, e destituídos das habilidades de organização comunitária, mergulhados num conformismo suicida e anestesiados por samba, futebol e malandragem (p.9).Na verdade, o acaso, as iniciativas estocásticas, a indiferença e a falta de objetividade têm sido a tônica no ambiente educacional como um todo.
Aziz Ab’Saber (1993, p.108) referindo-se ao papel da universidade brasileira no campo da educação ambiental, escreveu que:
Para repensar a responsabilidade da universidade brasileira nas questões relacionadas à educação ambiental, há de se partir de várias óticas e muitos pressupostos. E, nesse sentido, fica bem claro que a primeira abordagem dessa polêmica questão tende a exigir um esforço concentrado na (re)definição do próprio conceito de Educação. Mesmo porque não se pode pretender, evidentemente, penetrar em um novo processo educativo, paradigmático, sem uma análise prévia do importante atributo da sociedade humana que é a educação.
O livro intitulado Ensino e Conhecimento: elementos para uma Pedagogia em Ação, de Ruiz & Bellini (1998, p.7) traz textos que nos ajudam a refletir sobre o atual sistema educacional, pois trata especialmente da formação do educador, da interdisciplinaridade, da cultura tradicional escolar (...) e sobre o modo arcaico e custoso de fazer educação. Nesse sentido, os autores afirmam:
(...) a educação, em termos pedagógicos, tem se dado sempre da mesma forma. Há séculos o processo de escolarização tem o padrão-ensino aprendizagem. O professor ensina e o aluno aprende. Nenhuma mudança pedagógica abalou a estrutura dessa relação unidirecional.
Considerando que o próprio termo educação antes de ambiental tem gerado a idéia de que a prática nessa área possa ser igual à prática escolar. O que se poderia esperar da Educação Ambiental?
Grün (1996, p.20) também nos aponta as dificuldades quanto à conceituação ou o que poderia significar uma EA:
O próprio predicado ambiental é esclarecedor e revela inúmeros problemas e constrangimentos conceituais. Como decorrência dessa predicação, uma das primeiras coisas que nos vêm à mente é que se existe uma educação que é ambiental, deve existir também uma educação não-ambiental em relação à qual a educação ambiental poderia fazer referência e alcançar sua legitimidade.
Essa idéia é a de Leonardi (1997, p.394-5) que nos disse:
Mas o que é mesmo educação ambiental? E aí já vem vários complicadores. Ela é mais "educação"? Ou é mais "ambiental"? Ou seja, o que há de substantivo nela? Ou ela é apenas um adjetivo da educação, assim como a educação artística, a educação sexual, a educação para a terceira idade etc. etc.? (...)Nota-se que as diversas definições de educação ambiental variam, também, segundo a formação e a experiência profissional de quem as formula. Assim, um biólogo ou ecológico enfatiza o ambiente biológico; o sociológico, o ambiente humano; o geógrafo, o ambiente físico. Qual seria a ênfase do economista? O mercado? O trabalho?
Segundo Flickinger (1994, p.198) as discussões em torno da educação ambiental ainda não chegaram à criação de princípios ou critérios claros, capazes de oferecer base segura a partir da qual poderíamos pensar em projetos de implementação de uma respectiva prática de ensino, pois as diversas disciplinas (Educação, Pedagogia, Ecologia, Biologia, etc.) envolvidas nas questões ambientais, demonstram sua impotência para tratar a complexidade do meio ambiente.
Como vemos é muito amplo o universo de trabalho e de críticas às práticas da educação ambiental. Sem essas bases conceituais seguras, a EA tem se construído às vezes, mais voltada para a ecologia, outras para a educação, mas ambas com dimensões a serem repensadas.
3 Relato de uma Experiência em Educação Ambiental
Em 1995, a Associação dos Municípios do Vale do Itapocu – AMVALI, com sede no município de Jaraguá do Sul-SC, com o objetivo de contribuir ao Programa de Proteção e Recuperação Ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Itapocu da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina, iniciado em 1990, mas que estava suspenso por motivos de "descontinuidade administrativa", propusera "implantar" projetos específicos de educação ambiental formal e/ou informal no âmbito microrregional da rede municipal de ensino.
Como bióloga, prestei consultoria à AMVALI, fazendo parte da equipe técnica que elaborava o Plano Básico de Desenvolvimento Ecológico-Econômico – PBDEE (Santa Catarina, 1997), realizando palestras nas escolas sobre questões ambientais, tais como: a poluição das águas do rio Itapocu, o combate ao mosquito "borrachudo", a importância de preservar a mata atlântica e o diagnóstico sobre a disposição irregular dos resíduos sólidos da microrregião. Estas últimas atividades levaram-me a elaborar um projeto de educação ambiental. Neste trabalho, relato parte dessa experiência em Educação ambiental como coordenadora do Programa de Capacitação em Educação Ambiental para a Microrregião da Amvali.
A propósito, a região do Vale do Rio Itapocu ocupa uma área de aproximadamente 2.000km2, localizada na porção nordeste do Estado de Santa Catarina, limitando-se a leste com o Oceano Atlântico e a oeste com a Serra do Mar. Compreende os municípios de Barra Velha, Corupá, Guaramirim, Jaraguá do Sul, Massaranduba, Schroeder e São João do Itaperiú. A população da região é de aproximadamente 140 mil habitantes. A maior preocupação ambiental estava representada pelo comprometimento da qualidade da água do rio Itapocu, resultantes da crescente demanda e multiplicidade dos usos da água inerentes às atividades econômicas, pela presença de sete "lixões à céu aberto", todos localizados próximos à mananciais hídricos e pelo desmatamento da vegetação considerada de "Mata Atlântica" (Santa Catarina- PBDEE, 1997).
Antes de continuar, é importante abrir um parêntesis nessa história: na maioria das administrações públicas ou privadas que tratam das questões ambientais é exigido do profissional (biólogo, engenheiro florestal, geólogo, etc.) um desempenho pragmático, muito técnico e pouco científico, que geralmente passa a ser aceito com certa "naturalidade". Não que essa consideração justifique os péssimos trabalhos na área ambiental, mas esse é um fato presente em muitas administrações e nem sempre associamos essa realidade aos maus resultados de trabalhos nessa área.
A realização consecutiva de dois eventos de mobilização e sensibilização ecológica, em Jaraguá do Sul, denominados de Encontro Microrregional sobre Educação Ambiental, contou com a participação de secretários municipais de educação e do meio ambiente, de professores e diretores das escolas municipais, de técnicos de diferentes órgãos governamentais, não-governamentais e do setor privado. Esses eventos marcaram historicamente as iniciativas coletivas para o conhecimento da "tão falada Educação Ambiental". Os temas apresentados e discutidos nos eventos, entre eles, o levantamento de problemas ambientais da região e a necessidade de capacitar professores para a prática da EA subsidiaram a elaboração do Projeto que deu origem ao Programa de Capacitação em Educação para a Microrregião da AMVALI.
O trabalho foi promovido através de parcerias (para obtenção de recursos humanos e financeiros) estabelecidas entre a AMVALI, incluindo Secretarias Municipais de Educação e órgãos municipais de meio ambiente, o Centro Ambiental do SENAI – Blumenau - SC e a Empresa de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural de Santa Catarina – EPAGRI S.A.
A despeito de todos os problemas metodológicos e financeiros, foram realizados sete cursos de capacitação em educação ambiental para os professores da rede municipal de educação. Cada curso, constituído de palestras (apresentação de conteúdo teórico e práticas de EA por oito profissionais de diferentes formações (biologia, economia, pedagogia, oceanografia e extensão rural), visitas de campo e seminários para apresentação de projetos (realizado um mês após a parte teórica), totalizou 40 horas/aula.
Nossos objetivos visavam: a) desencadear um processo sistematizado de atividades e ações interdisciplinares voltadas à prática da EA no âmbito da microrregião; b) difundir informações técnicas e científicas, instrumentos de intervenção didática e legal capazes de fomentar a promoção de ações para a conservação, preservação e recuperação dos recursos naturais da bacia hidrográfica do rio Itapocu de acordo com suas peculiaridades e, c) apoiar a implementação de projetos nas unidades escolares, por meio de Equipes de Qualidade Ambiental (alunos e professores) visando a construção de uma Escola Amiga do Meio Ambiente.
Os temas tratados foram: Educação ambiental – aspectos conceituais, históricos e práticas; Diagnóstico ambiental da bacia hidrográfica do rio Itapocu; Flora e fauna da microrregião; Poluição das águas doces e marinhas; Saneamento urbano e rural; Meio ambiente como fator econômico; aspectos da legislação ambiental e Sistema de Gestão Ambiental.
Quanto ao material: utilizamos uma "apostila" com resumos das palestras; uma coleção de audiovisuais, vídeos (sobre o rio Itapocu, mata ciliar, resíduos sólidos), mapas temáticos de cada município, folhetos diversos e bibliografia afim.
Para avaliarmos o papel dos cursos a que os professores foram submetidos, propusemos, na época, a elaboração de projetos que contemplassem ações com os alunos, para a "construção de uma Escola Amiga do Meio Ambiente".
Esse programa atingiu diretamente 210 professores da microrregião, de diferentes formações, de magistério, e de crianças do jardim de infância, atuantes em escolas municipais, estaduais e privadas. Foram apresentados 112 projetos, das 125 escolas participantes. Estimou-se que aproximadamente 11 mil alunos possam ter sido envolvidos no processo de execução dos mesmos.
Alguns resultados imediatos de implantação de projetos de sistema de gestão ambiental na escola foram registrados em vídeos, relatórios e fotografias em todos os municípios, com acompanhamento dos órgãos promotores e da imprensa local e regional.
Ainda em novembro de 1996, parecia que o Estado de Santa Catarina "respirava Educação Ambiental", e mais um projeto foi colocado em prática. Os professores das Secretarias Estaduais de Educação participaram do Curso de Capacitação Estratégica em Educação Ambiental, através do Programa Estadual de Educação Ambiental – VIVA A FLORESTA VIVA, executado pelo Instituto Larus (professores da UFSC e técnicos).
Como acabou essa história? Em 10 de dezembro de 1996, a AMVALI promoveu a única reunião para avaliar o seu Programa de Educação Ambiental entre as entidades promotoras e tratou sobre: a) continuidade do Programa; b) acompanhamento das ações; c) promoção dos próximos eventos, e c) solicitação de recursos financeiros ao Fundo Especial de Proteção ao Meio Ambiente – FEPEMA-SC.
Eufóricos e otimistas, concluímos que tinha sido um bom trabalho e esperávamos "colher os frutos" no próximo ano. Porém, em janeiro de 1997, assumiram os prefeitos municipais eleitos. Uma nova Presidência da AMVALI surgiu e a realidade foi outra. Começamos a ouvir um outro discurso, as novas palavras de ordem: "contenção de despesas; arrumar a administração - nossas prioridades são saúde, emprego e educação; para resolver questões ambientais como as dos lixões, contrataremos técnicos capacitados da Alemanha, de Curitiba, de qualquer lugar do país e do exterior".
Por fim, o assunto Educação Ambiental "morreu" para AMVALI. A informação de que não existiam recursos para pagamento da consultoria ambiental foi sutilmente descoberta. Por esse motivo, ainda em janeiro/97, fui trabalhar como Chefe da Divisão de Recursos Naturais da Fundação Municipal de Meio Ambiente – FAEMA, Blumenau – SC.
Em abril de 1999, passados quase dois anos e meio, tomamos o depoimento de três pessoas importantes no processo, entre eles: 1) o Diretor de Redação e Editor do Jornal do Vale (ele sempre divulgou e apoiou as atividades realizadas pelas escolas na área ambiental), 2) a Secretária Municipal de Educação de Schroeder; 3) a Assessora Administrativa da mesma Secretaria, vejam suas falas:
(...) O grande momento da educação ambiental na microrregião foi sem dúvida, aquele Programa de Capacitação, depois disso, houve uma interrupção no trabalho, morreu tudo. O município de Jaraguá do Sul, através de estrutura administrativa mantém atividades ambientais, o de Corupá (sem estrutura administrativa) está tentando resolver o problema do lixo. Nos outros municípios, poucas escolas deram continuidade aos projetos e a AMVALI pouco se envolveu em trabalhos na área ambiental. Para mim, que visito todos os municípios da microrregião, as reclamações das comunidades são muitas, mas considero que houve um retrocesso quanto a conscientização ecológica, parece que aquele programa é coisa do passado.
(...) as coisas não vão bem, Educação Ambiental, nem se fala, apesar de que, este assunto, tinha mais a ver com você.
(...) Infelizmente, a educação ambiental praticamente morreu aqui no município, muitos professores pediram satisfações sobre o que aconteceu, mas nós, não tivemos respostas. Não recebemos nenhuma comunicação oficial da Amvali, da Epagri ou do Senai. A única escola que continua falando de meio ambiente e plantando árvores é a do H., mas ele você sabe, sempre gostou muito disso.
Esses depoimentos apenas reforçaram minhas preocupações: alguma coisa deu errado! Assim, considero que o final da história do nosso trabalho tenha sido pouco triste, mas como nos disse o poeta Drummond de Andrade, em Memória:
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão.
Depois de tudo isso nos restou mais perguntas. Por que nos interessaria essa experiência? Ela, significou alguma coisa de Educação Ambiental? Se ela foi concebida e praticada no atual paradigma reducionista e utilitarista, que contribuição pode oferecer aos nossos estudos?
4 Algumas Considerações: Balanços e Perspectivas
De fato, nos interessaria essa experiência considerando as que avaliações trouxeram à tona uma realidade a cerca da Educação Ambiental muito diferente daquelas pronunciadas nas tantas palestras e em cursos que assisti. Estas palestras sempre enfatizaram apenas aquilo que era nosso desejo, ou seja, dizer que "tudo é válido, lindo e maravilhoso", que já fizemos nossa parte, agora "seja o que Deus quiser".
A seguir, apresentaremos alguns pontos dessa realidade.
Um programa de Educação Ambiental não pode ser idealizado por uma única pessoa, porque na AMVALI, ele sempre esteve associado a mim e no momento que essa referência desapareceu, quase tudo foi desfeito.
Em EA, os resultados práticos e imediatos servem apenas para aparentar uma consciência ecológica/ambiental. Os programas de abrangência regional (neste caso, em 7 municípios) possuem pontos positivos, mas também são problemáticos, porque:
Os professores palestrantes nem sempre possuem conhecimento interdisciplinar capazes de traduzir a realidade histórica, cultural, sócio-econômica e ambiental de cada município e muito menos, da escola;
Mesmo palestrantes "ambientalmente informados" não conseguem abandonar nossa formação reducionista, mecanicista e utilitarista;
Envolvem um grande número de pessoas (professores, alunos e pais) que se predispõem a participar dessa "mais nova educação", e quando não dá certo, gera uma decepção coletiva, que pode afetar qualquer atividade futura.
Realizar cursos com 16 horas/aula de conteúdo teórico não é suficiente para construir formas de raciocínio e questionamentos pertinentes. Válidos a uma educação científica. Quase sempre são "despejadas" quantidades absurdas de informações.
Palestras não são suficientes para gerar discussões de questões científicas; ficam mais no nível da informação e não são trabalhadas como educação científica.
Um grupo composto por palestrantes de diferentes áreas de formação não garantem a verdadeira interdisciplinaridade, àquela, proposta pelo epistemólogo Piaget ou pelo filósofo Morin.
A falta de recursos financeiros específicos para educação ambiental, a descontinuidade administrativa (por exemplo: troca de prefeitos ou secretariado), a falta de compreensão e permissão dos diretores de escola para que a rotina da escola seja constantemente alterada pelos cursos e atividades extra-classe são alguns dos problemas, já levantados por outros autores, que devem ser previamente avaliados para se começar um programa de EA.
As parcerias entre diferentes órgãos (governamentais e não–governamentais) sugeridas por diversos "educadores ambientais" como alternativas para se começar a fazer educação ambiental, nem sempre são positivas, pois a falta de seriedade, os "verdadeiros interesses" de cada órgão ou pessoa envolvida aparecem no decorrer do trabalho; qualquer desarticulação entre os participantes compromete os objetivos e a credibilidade do programa.
Consideramos válidas as relações de amizade que surgiram entre os participantes, as trocas de informações e momentos de descontração e de indignação vividos na escola, nas visitas em áreas de preservação ambiental, como a mata atlântica, e áreas que precisam ser conhecidas, como os "lixões" municipais, etc.
Infelizmente, a indiferença imposta às ações de educação ambiental naquela microrregião refletiu as contradições políticas partidárias e fez sobressair formas autoritárias de trabalhar em comunidade, tal como, reunir professores para discutir e levantar problemas ambientais nunca foi uma atitude estimulada por governantes. Entre os prefeitos e as populações, sobretudo, quando estas descobriam os lixões ou áreas poluídas, as "rédeas" dos votos ficavam muito soltas.
Em síntese, após seis anos dedicados à prática da educação ambiental, período iniciado em meados de 1990 (como secretária administrativa do Comitê de Preservação, Gerenciamento e Pesquisa da Bacia do Rio dos Sinos – COMITESINOS acompanhei e participei do trabalho do Grupo Técnico de Educação Ambiental (até 1994) trealizado na bacia do rio dos Sinos), em São Leopoldo – RS e, na AMVALI, compreendi que "fazer educação ambiental" como base no atual modelo preconizado pelas estratégias internacionais e nacionais, temos poucas chances de mudar a nossa relação homem e natureza e impedir a crescente destruição da vida na Terra.
Como nos disse Morin & Kern (1995, p.36): a despeito de todas as regressões e inconsciências, há um esboço de consciência planetária, na segunda metade do século XX. Embora se perceba uma progressiva conscientização mundial e individual em compreender e prevenir problemas ambientais, ainda há muito ou quase tudo para fazer.
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