MEIO AMBIENTE E EDUCAÇÃO:
COMPONDO UM PRIMEIRO DIÁLOGO

 

Luzia Marta Bellini*

 

Resumo: Este texto levanta algumas reflexões sobre a educação ambiental. Como área ela ainda é um mosaico em construção, mas como discurso está consolidada entre nós. Como é possível a educação ambiental? Deve ser uma disciplina escolar? São nossas perguntas.

Palavras-chave: educação ambiental, educação estética, educação científica

Abstract: This text raises some reflections about the environmental education. As area it still is a mosaic in construction, but as speech is consolidated among us. How is the environmental education possible? It must be one disciplines pertaining to school? They are our questions.

Keywords: environmental education, aesthetic education, scientific education

A Terra é uma anomalia. Em todo sistema solar, ao que se saiba,
é o único planeta habitado. Nós, humanos, somos uma entre
milhões de espécies que vivem num mundo em florescência,
transbordando de vida. No entanto, a maioria das espécies
que existiram não existe mais. Depois de prosperarem por
180 milhões de anos, os dinossauros foram extintos.
Todos sem exceção. Não sobrou nenhum. Nenhuma espécie
tem garantido o seu lugar nesse planeta. E, estamos aqui há
apenas 1 milhão de ano, nós, a primeira espécie
que projetou os meios para a
sua autodestruição. (Carl Sagan)

A escola separa o homem de seu ambiente

A idéia de escrever este texto surgiu da necessidade de reunir algumas reflexões sobre educação ambiental para discuti-las com alunos do Curso de Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, pois a área de Educação Ambiental é, hoje, parte deste programa. Além disso, comungo com a idéia de que educação ambiental não pode ser um conjunto de noções ou um programa que deverão ser passados para crianças e jovens na maneira usual da escola. Acredito que quando transformamos a educação ambiental em disciplina, ela morre no próprio nascedouro porque, para nossa cultura escolar, é mais fácil ensinar do que aprender a pensar e agir para mudar. E, quando se fala em educação ambiental todas as raízes que ainda sustentam o paradigma reducionista no ensino de ciências, tomam corpo para domesticar os aprendizes com fórmulas pobres acerca do mundo natural, do meio mais próximo, da idéia de vida. A cultura escolar vive do hábito, não do pensamento criativo.

Nesse caminho, quando tomamos a discussão sobre meio ambiente e a educação nosso pensar volta-se para o modelo tradicional de ensino, ou seja, o de ensinar regras de como fazer e, até mesmo, como pensar. Na escola sempre foi mais importante o como do que os porquês das coisas. Os livros didáticos nada mais fazem do que trazer um conjunto de procedimentos e alguns princípios das ciências. Já se foi o tempo dos laboratórios e alguns desafios científicos às crianças e jovens. Hoje os estudantes são submetidos a horas de escuta do livro didático, páginas sem vida que falam de vidas. O filósofo John Passamore (apud Sagan, 1997, p.326) traduz essa miséria intelectual à qual submetemos os aprendizes desde cedo na escola. Disse o filósofo:

[ a ciência]... Ela é aprendida nos livros didáticos. Não se lêem as obras dos grandes cientistas, nem as contribuições diárias para a literatura científica[...]. Ao contrário do humanista iniciante, o cientista iniciante não tem contato imediato com o gênio. Na realidade [...] os cursos escolares podem atrair para a ciência o tipo errado de pessoa - meninos e meninas sem imaginação que gostam de rotina.

Se na educação científica cada vez mais vemos o fechamento de cérebros, o que seria diferente na educação ambiental como disciplina? Flikinger (1994) apontou o problema que traz o termo educação antes de ambiental. Para esse autor, o termo educação está carregado da conotação de normas e regras próprias da organização escolar. E, sabemos esse território tem mais de adestramento do que aprendizagem e criação. Educação ambiental, na concepção do autor, é um mosaico em constituição, está em processo de criação e desenvolvimento.

Gosto dessa idéia de Flikinger; ela destaca que a construção da área de educação ambiental ainda é um quebra cabeças no qual cada um de nós vai depositando seu trabalho tentando constituir algo que já tem nome celebrado e obrigatório no processo pedagógico. O problema, nesse caso, é que as próprias teorias educacionais pouco privilegiam a noção de ambiente, ou como disse Grün (1996), nessas teorias há lacunas sobre a dimensão ambiental. Aquelas que trazem o ambiente na relação da aprendizagem como a "behaviorista", por exemplo, situam-no como algo ao qual o indivíduo tem que se submeter. Trata-se de uma relação que reduz o indivíduo a uma tábula rasa onde o ambiente imprime suas características. Diga-se de passagem que ambiente na teoria comportamentalista é o ambiente dominado por adultos (contra as crianças), patrões manipulando empregados..., não é o ambiente como um conjunto de relações construídas entre homens e natureza. Cabe ressaltar aqui a teoria de Piaget, porém esta não é uma teoria da aprendizagem e sim uma epistemologia construtivista.

Assim, o que temos é algo um tanto confuso quando se fala de educação ambiental; penso como Flinkinger que ainda não temos um mosaico constituído, mas já há muita produção séria e competente. A cilada reside nas malhas das escolas onde a ausência de uma educação realmente científica faz com que fiquemos ensinando crianças e jovens a decorar lições aos pedaços: colocar "plaquinhas", escrever no caderno várias vezes as frases dos livros etc. Depois, realizar provas para medir o quanto decorou desses "conteúdos"...Nada é mais entediante e anti científico do que a pressa da escola em medir idéias e ações em ciências.

 

Experiência estética: aprendendo com a natureza

Há muitas dimensões a serem discutidas para pensar uma educação ambiental comprometida com o pensamento e a ação. Coloco uma delas: a idéia Goethe de experiência/educação estética.

Isso pois, entendo que um dos primeiros passos para a educação ambiental é criar um "gosto" pela natureza, ou, nas palavras de Hillmam (1997) "aprender com a natureza" e, acredito, precisamos retomar fundamentos daquilo que hoje chamamos de educação ambiental. Esses fundamentos estão no amplo caminho científico de geógrafos, naturalistas, antropólogos entre outros abriram para nós há muitos séculos. Há muito tempo pensadores de diferentes espaços tratam do lixo humano; desde que o homem descobriu-se vivendo em cidades, ele descobriu-se com o problema de seu lixo. Como milhares de escravos construíram as pirâmides vivendo e comendo juntos durante anos a fio. Como resolveram o problema alimentar? Com que tipo de impacto ambiental se colocaram? Como os resolveram?

Como os hindús resolviam o problema da irrigação de suas plantações de arroz até a chegada dos ingleses no século passado? E que falar de muitas tribos indígenas brasileiras que resolviam o problema de epidemias enterrando seus mortos com os pertences do morto? Os indígenas brasileiros sabiam até quando podiam caçar antas. Conheciam a população limite desses mamíferos. Muitos estudos sobre civilizações indígenas vemos um conhecimento da estrutura e funcionamento da natureza. A idéia de educação e ambiente não é nova.

Não é nova também a idéia da beleza do imenso tecido de seres vivos que compõe as relações naturais. A natureza, na história do ocidente, teve um lugar de destaque. Foi movimento em Aristóteles, Deus ou lugar da manifestação divina para Nicolau de Cusa, Giordano Bruno e Spinoza, arte em Goethe. Todavia, a natureza também foi pensada como algo a ser usado. Essa concepção utilitarista da natureza ganhou força a partir da época moderna tanto entre cientistas quanto entre filósofos. Ela foi pensada como máquina. Estávamos no início da era industrial e a analogia com as máquinas das manufaturas e fábricas foi um indício de que se aprofundava o fosso do homem e a natureza. Mais tarde, com pensadores ligados à economia a natureza passou a ser vista como mercadoria: cabe-nos dizer que o próprio homem (operário) era uma mercadoria. Mercadorias baratas e em quantidade para produzir lucro.

Parece exagero, mas mesmo a paisagem ecológica foi dividida em feia e bonita, útil e nociva ao homem. Aristocratas do século XVII e XVIII não usavam qualquer planta nas portas de suas casas. Nem todas indicavam riquezas ou capital simbólico. O paisagismo nascia impregnado de conotações sociais: algumas flores eram sinal de pouco capital simbólico, eram de pessoas simples. Os ricos ou nascidos ricos usavam outra "paisagem ecológica". Esses pensamentos fizeram também com que muitos naturalistas do século XVIII, por exemplo Buffon, escrevessem que a natureza da América latina era inferior à da Europa. Essas idéias, as atitudes dos homens diante da natureza fizeram elaborar também uma crença de que tudo podemos fazer para o progresso. Mais uma vez a natureza suportou o peso das crenças sociais e mais do que nunca foi tomada como o lugar de transformação do homem pelo trabalho. "A natureza é transformada pelo homem", frase encontrada em muitos escritos brilhantes de homens brilhantes, mas comprometida com o ideário do século XIX, o imenso progresso. A esse conjunto de comportamentos e ações damos o nome de antropocentrismo que tem norteado nossos valores hoje. Não é a toa que nos livros didáticos aparecem bichos úteis e nocivos, plantas daninhas e cultiváveis, feios e bonitos, idéias do século XVI, XVII presentes até hoje. Esse comportamento está nas escolas, nos livros, na mídia, no cotidiano do espaço urbano. Um carro novo é mais bonito do que ruas com árvores, azulejos enfeitam calçadas substituindo gramas, flores iguais fazem o paisagismo dos prédios da cidade e das praças. Rios morrem longe, insetos desaparecem de nosso horizonte, folhas são varridas como lixo e milhões de mercadorias nos espreitam feitas às custas de algo que se extingue. Talvez, sonhemos com um mundo azulejado, bem "limpo" sem a natureza sujando casas, quintais e ruas.

Uma educação/experiência estética supõe um passo adiante, mas muito difícil de ser dado. Ela supõe ouvir e pensar a beleza dos cantos dos sapos que ora cantam procurando sua companheira, ora de solidão. Necessita que gostemos de árvores com líquens, de libélulas, de chuva, de grama. Supõe pensar as infinitas relações naturais e onde estamos inseridos nesse tecido. Supõe perder o hábito severo imposto por muitos séculos do antropocentrismo para pensar o mundo natural de outra forma: lembrar de nossos ancestrais e de nossa herança cósmica.

Um bom começo para a educação ambiental: reaprender com a estética da natureza, com seus desenhos, formas, padrões. Pensar a viagem de cada célula para compor um organismos. Admirar os meandros dos rios. Tarefa de biólogos e filósofos comprometidos com uma estética do belo, ecológica. E, lembrarmos Bachelard: Não podemos educar as crianças para a sociedade, mas a sociedade para a escola. Do contrário tudo fica na mesma. A educação ambiental inicia-se no ambiente. E para bom entendedor...

 

Referências Bibliográficas

FLIKINGER, Hans-Georg. Ambientes epistemológicos em educação ambiental. Revista Educação & Realidade, 1994.

GERBI, Antonello. O mundo novo. História de uma polêmica (1750-1900). São Paulo: Cia das Letras, 1996.

GOETHE, E. Ciência e Arte. Tradução de Marcelo Grüel. Universidade Federal de Santa Catarina, mimeo, 1995.

HILLMAN, James. Cem anos de psicanálise e o mundo está cada vez pior. São Paulo: Summus, 1997.

OLIVEIRA, Daisy Lara de. O antropocentrismo no ensino de ciências. Revista Espaços da Escola. Unijuí: Livraria UNIJUÍ/Editora, Ano 1, n.4, Abr/jun/86, pp.08-15.

OLIVEIRA, Renato José de. De romances e solilóquios. Sobre o que (não) há de novo no ensino de ciências. Revista Espaços da Escola. Unijuí: Livraria UNIJUÍ / Editora, Ano 1, n.4, Abr/jun/86, pp.16-22.

SAGAN, Carl. Bilhões e bilhões. Reflexões sobre vida e morte na virada do milênio. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

________ O mundo assombrado pelos demônios. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. São Paulo: Cia das Letras, 1988.

 



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